quarta-feira, 4 de maio de 2016

Sempre um tripé


Um pedreiro, um bom pedreiro, quando é contratado para realizar uma obra, a primeira coisa que ele faz é examinar a planta e entendê-la. Para isso, ele passa algum tempo, não raras vezes, muito tempo, “conversando” com o projeto do engenheiro, para compreender todos os pormenores da obra. Como fazer o alicerce, quais os materiais a serem usados; qual o diâmetro da ferragem, a quantidade de areia, pedra e cimento a ser usado no concreto. Depois, as paredes, quais serão duplas, quais serão simples, quais serão de meio tijolo, qual a formulação da massa a ser usada, onde ficarão as aberturas ou vãos de portas e janelas. Se tiver laje como forro, qual a ferragem a ser usada e a formulação do concreto de cobertura. Vem então a fase do reboco: qual será a formulação da massa, quais paredes serão preparadas para receber revestimentos, quais receberão acabamento de massa fina. Finalmente, o piso: se será rustico para receber revestimento cerâmico ou mais liso para carpete ou piso laminado. Enfim, um longo diálogo para conhecer tudo sobre o projeto a ser realizado. Nesse projeto tinha algo que ele ainda não conhecia: Paredes duplas externas, para receber entre elas lã de vidro para isolação térmica e acústica.


O bom pedreiro já é um profissional que aprendeu a fazer bem o seu trabalho. Mas o avanço tecnológico que também ocorre na área da construção civil, pode lhe preparar algumas surpresas no projeto. Algum material ou alguma técnica que lhe é desconhecida. Ele terá então que aprender sobre os materiais e técnicas que lhe são estranhos, para depois colocar em pratica este aprendizado. Feito isso, ele estará pronto para começar a obra que foi contratada. Foi o que fez o pedreiro da história. Foi buscar conhecimento sobre as paredes duplas.
Ele sabe que sozinho não conseguirá desenvolver a contento seu trabalho. Então contrata outros pedreiros e alguns ajudantes e começa a trabalhar. Depois de alguns meses, eis que surge uma majestosa construção em um local que antes fora apenas um terreno baldio. E, ao contemplar sua obra, o pedreiro se sente feliz e realizado. Um belo trabalho.
Se observarmos os passos dessa pequena história, que trata de um assunto corriqueiro, veremos que tudo se assenta em um tripé.
A primeira perna do tripé foi a “conversa” com a planta que o engenheiro lhe entregou. Foi nessa conversa que ele entendeu como deveria ordenar seus passos, para que tudo corresse bem.
A segunda perna do tripé foi todo o conjunto de variantes que estava contido no projeto. O trabalho em si ela já conhecia, pois já havia executado várias outras construções e já havia aprendido muitas coisas da sua profissão. Mesmo assim, surgiram algumas coisas novas nesse projeto, a tal parede dupla que ele não conhecia. Então ele precisou estudar o assunto para que seu trabalho fosse perfeito.
A terceira perna do tripé aparece com o início da construção, ou seja, com a ação executado pelo pedreiro, com a colaboração de seus colegas de trabalho.
Depois de concluída a obra. Ele a contempla e se sente feliz pela realização.
Entretanto, se ele não seguisse o tripé, a obra provavelmente não seria digna da felicidade que ele sentiu.
Se analisarmos todas as atividades humanas, eles seguem esse esquema. Tudo está assentado sobre um tripé.
E isso também acontece na religião, especialmente no cristianismo católico. Querem ver? ... Vamos lá.
Falamos em uma obra na história do pedreiro. Portanto, vamos começar com essa ideia e verifiquemos o que nos diz a Carta de Tiago, no seu capitulo II.
14. De que aproveitará, irmãos, a alguém dizer que tem fé, se não tiver obras? Acaso esta fé poderá salvá-lo? 15. Se a um irmão ou a uma irmã faltarem roupas e o alimento cotidiano, 16. e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, mas não lhes der o necessário para o corpo, de que lhes aproveitará? 17. Assim também a fé: se não tiver obras, é morta em si mesma.
O que Tiago quer dizer para nós?
O que ele quer dizer é muito simples: ter fé implica acreditar em alguém que nos ensinou como caminhar na vida e seguir o exemplo dessa pessoa. E a referência de Tiago todos os cristãos conhecem: é Jesus o Cristo. Podemos dizer então que o obra de todo cristão é seguir Jesus. E aí alguém perguntará: mas essa obra tem um projeto? O pedreiro tinha uma planta com o qual ele conversou longamente e disso percebeu que precisava estudar para entender melhor aquele projeto, para só então desenvolvê-lo a contento.
No caso de Tiago, podemos comparar Jesus com o nosso pedreiro. Sim, Jesus tinha um projeto e ele o estudou muito antes de coloca-lo em prática. Querem ver?
Ao abrirmos a Bíblia nos deparamos com Deus já criando, ou seja, já existia um projeto que estava sendo cumprindo, o projeto da criação, que culmina com a criação do homem e da mulher. É nesse instante que surge outro projeto, cujo engenheiro é o próprio Deus. Ele está ali no versículo 29 do capitulo I do Genesis:
27. Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher. 28. Deus os abençoou: “Frutificai, disse ele, e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra”. 29. Deus disse: “Eis que eu vos dou toda a erva que dá semente sobre a terra, e todas as árvores frutíferas que contêm em si mesmas a sua semente, para que vos sirvam de alimento. 30. E a todos os animais da terra, a todas as aves dos céus, a tudo o que se arrasta sobre a terra, e em que haja sopro de vida, eu dou toda erva verde por alimento. E assim se fez”.
Deus lhes deu o paraíso. Esse é o projeto de Deus: que o homem e a mulher, ou seja, que a humanidade viva no paraíso.
Mas aquele primeiro casal não soube construir e aperfeiçoar o paraíso. Pelo contrário: a prepotência os levou a deturpar o projeto, a descaracterizá-lo. Não acolheram a proposta do Engenheiro. Seus seguidores primeiros seguiram a mesma sina.
Percebem nisso a ausência das pernas do tripé?
Muitos tentaram retomar o projeto, que era então o projeto da humanidade. Entre eles, alguns até sabiam do tripé, mas não conseguirem bons auxiliares e sozinhos nada conseguiram de muito frutuoso.
Depois de muitos anos de caminhada eis que surge um Pedreiro diferente, um verdadeiro construtor. A primeira coisa que ele faz é estudar muito o projeto de Deus. Ele dedicou vários anos de sua vida nesse diálogo com o projeto e com o Engenheiro. Estudou o projeto e estudou muito a forma de realiza-lo. Dedicou-se com afinco nestas duas tarefas. Quando se achou em condições de executá-lo, começou a reunir seus auxiliares. Desses escolheu doze homens, que ele formou como construtores, e muitos ajudantes.
Então ele começou a sua construção que, por algum tempo, não encontrou muitos obstáculos e os que apareciam, Ele conseguia transpor, sempre conversando com o Engenheiro e estudando o projeto. Mas, a inveja corroeu aqueles que se achavam seus concorrentes, aqueles que achavam que estavam cumprindo o projeto, mas que, na verdade, continuavam a deturpá-lo. E aí surge o embate, o conflito. Na hora do enfrentamento seus auxiliares não o ajudaram, não porque não quisessem, mas porque foram ensinados para serem pacíficos. Não sabiam ser violentos como seus adversários, os quais, de forma covarde e injusta, executam o Mestre.
E pareceu então que o projeto morreria com seu Construtor, mas eis que Ele ressurge, reúne seus colaboradores e transfere a eles a responsabilidade de continuarem seu projeto. Este projeto ainda está em construção a quase dois mil anos. Muitos tentaram interrompê-lo, mas ninguém conseguiu. Podemos dizer, sem medo de errar, que é muito mais provável que este projeto chegue a seu termo do que alguém possa interrompê-lo. Isso porque, de uma forma ou de outra, o Construtor continua na sua condução.
Agora, vejam: esse Construtor passou muitos anos dialogando com o Projeto e com o Engenheiro (na linguagem cristã, nos dizemos que ele rezava e conversava com o Engenheiro (DEUS)). Além disso, ele passou também muitos anos estudando como desenvolver aquele projeto, como fazer algumas coisas do projeto que Ele não sabia. Somente depois de estar preparado ele partiu em busca de colaboradores e iniciou sua construção, que continua em pleno andamento.
O que aparece aqui: primeiro a conversa com o Engenheiro, com o Autor do projeto: Ele rezava fervorosamente; depois, o estudo pois Ele precisava conhecer bem todos os componentes do projeto, muitos dos quais eram novos para a realidade daqueles tempos; finalmente, a busca pelos colaboradores e o início da ação, da construção.
Temos aqui novamente o tripé: e dessa vez é muito fácil identificar suas pernas: a primeira: a oração; a segunda: formação; a terceira: a ação.
Não é preciso muito esforço para descobrirmos que o Construtor aqui é Jesus. Mas talvez precisemos que um pouco de esforço para compreender que mesmo Jesus precisou se apoiar no tripé: Ele rezou, estudou e depois agiu.
E assim foi com muitos daqueles que o sucederam nessa caminhada de construção do seu projeto, que Ele chamou de Reino de Deus ou Reino dos Céus e que sabemos tratar-se do Paraíso no projeto original.
Portanto, nós cristãos, que nos consideramos seguidores de Jesus, só poderemos de fato dizer isso, se seguirmos os caminhos do Mestre: para realizarmos qualquer fase do projeto, por menor que seja, temos que nos apoiar nesse tripé: oração, formação e ação. Se não o fizermos, estaremos muito provavelmente fadados ao insucesso.
Padre Zezinho tem uma música, infantil até, mas que faz presente essa advertência para nós hoje.
Amar como Jesus amou
Sonhar como Jesus sonhou
Pensar como Jesus pensou
Viver como Jesus viveu
Sentir o que Jesus sentia
Sorrir como Jesus sorria
E ao chegar ao fim do dia
Eu sei que dormiria muito mais feliz
Jesus orou, estudou e agiu. Passou mais tempo orando e estudando do que propriamente agindo. Só agiu quando se sentiu preparado.
Tenhamos sempre em mente essa verdade cristã: para agir precisamos estar preparados (formados), para nós formarmos, precisamos orar e orar bem, dialogar com Deus; só depois disso é que deveremos partir para a ação.
Então, de nada adianta simplesmente decorar orações prontas. Elas nos são útil, mas não podemos ficar só nisso. É preciso ir mais além, é preciso entrar no clima da oração, é preciso ampliar nosso horizonte espiritual, é preciso dialogar com a Trindade Santa.
Depois passamos ao estudo. Ler a Bíblia é muito importante. Mas é preciso estudá-la, ruminar a Palavra, entender seu sentido e seu significado e, principalmente, sua atualidade. Para isso precisamos de formação, de aprender com aqueles que estão mais familiarizados com as coisas sagradas, senão ficamos como crianças, sempre a depender de papinha porque não aprendemos a ingerir alimento sólido. Seremos sempre crianças na fé e jamais cristãos maduros e caminhantes da estrada de Jesus.
Por fim, quando nos sentirmos seguros de nossos conhecimentos, começamos a agir de forma consciente e destemida, sem medo de dar as razões de nossa fé e seguros do caminho que devemos seguir. Só assim seremos sal da terra e luz do mundo.


Antonio Gazato Neto

leigo cristão católico

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Material de Apoio 06




TEMA 6. A Criação

(Catecismo da Igreja Católica, 279-374.)

A doutrina da Criação constitui a primeira resposta às questões fundamentais sobre a nossa origem e o nosso fim.

Introdução

A importância da verdade da criação baseia-se «no fundamento de todos os projetos divinos de salvação; [...] é o primeiro passo para a Aliança do Deus único com o seu povo; é o início da história da salvação que culmina em Cristo» (Compêndio, 51). Quer a Bíblia (Gn 1,1) quer o Credo começam com a profissão de fé em Deus Criador.

A diferença dos outros grandes mistérios da nossa fé - a Trindade e a Encarnação - a criação é «a primeira resposta às questões fundamentais do homem acerca da sua própria origem e do seu fim» (Compêndio, 51), que o espírito humano coloca e pode também, em parte, responder, como mostra a reflexão filosófica e os relatos das origens pertencentes à cultura religiosa de tantos povos (cf. Catecismo, 285), não obstante, a especificidade da noção de criação, somente se captou, de fato, com a revelação judaico-cristã.

A criação é, pois, um mistério de fé e, ao mesmo tempo, uma verdade acessível à razão natural (cf. Catecismo, 286). Esta peculiar posição entre fé e razão, faz da criação um bom ponto de partida na tarefa de evangelização e diálogo que os cristãos estão sempre - particularmente nos nossos dias [1] - chamados a realizar, como já fizera São Paulo no Areópago de Atenas (At 17,16-34).

Costuma fazer-se a distinção entre ato criador de Deus - a criação active sumpta - e realidade criada, que é efeito de tal ação divina - a criação passive sumpta [2]. Seguindo este esquema expõem-se a seguir os principais aspectos dogmáticos da criação.

1. O ato criador

1.1. «A criação é obra comum da Santíssima Trindade» (Catecismo, 292)

A Revelação apresenta a ação criadora de Deus como fruto da Sua omnipotência, da Sua sabedoria e do Seu amor. Costuma atribuir-se a criação, particularmente, ao Pai (cf. Compêndio, 52), assim como a redenção ao Filho e a santificação ao Espírito Santo. Do mesmo modo, as obras “ad extra” da Trindade - a primeira delas, a criação - são comuns a todas as Pessoas e, por isso, é lógico perguntar qual o papel específico de cada Pessoa na criação, pois «cada pessoa divina realiza a obra comum segundo a Sua propriedade pessoal» (Catecismo, 258). É este o sentido da, igualmente, tradicional apropriação dos atributos essenciais - omnipotência, sabedoria, amor - respectivamente, ao operar criador do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

No Símbolo niceno-constantinopolitano confessamos a nossa fé «num só Deus, Pai omnipotente, criador do céu e da terra»; «num só Senhor Jesus Cristo [...] por quem tudo foi feito»; e no Espírito Santo «Senhor que dá a vida» (DS 150). A fé cristã fala, portanto, não somente de uma criação ex nihilo, do nada, que indica a omnipotência de Deus Pai; mas também de uma criação feita com inteligência, com a sabedoria de Deus - o Logos por meio do qual tudo foi feito (Jo 1,3); e de uma criação ex amore (GS 19), fruto da liberdade e do amor que é o próprio Deus, o Espírito que procede do Pai e do Filho. Em consequência, as processões eternas das Pessoas estão na base do Seu operar criador [3].

Assim, como não há contradição entre a unicidade de Deus e ser três pessoas, de modo análogo não se contrapõe a unicidade do princípio criador com a diversidade dos modos de operar de cada uma das Pessoas.

«Criador do céu e da terra»

«”No princípio, Deus criou o céu e a terra”. Três coisas são afirmadas nestas primeiras palavras da Escritura: Deus eterno deu um princípio a tudo quanto existe fora d'Ele. Só Ele é criador (o verbo “criar” - em hebreu bara - tem sempre Deus por sujeito). E tudo quanto existe (expresso pela fórmula “o céu e a terra”) depende d'Aquele que lhe deu o ser» (Catecismo, 290).

Só Deus pode criar em sentido próprio [4], o que implica originar as coisas a partir do nada - ex nihilo - e não a partir de algo preexistente; para isso requer-se uma potência ativa infinita, que só a Deus corresponde (cf. Catecismo, 296-298). É congruente, portanto, apropriar a omnipotência criadora ao Pai, já que Ele é na Trindade (segundo uma clássica expressão) fons et origo, quer dizer, a Pessoa de quem procedem as outras duas, princípio sem princípio.

A fé cristã afirma que a distinção fundamental na realidade é a que se dá entre Deus e as Suas criaturas. Isto supôs uma novidade nos primeiros séculos, nos quais, polaridade entre matéria e espírito motivava visões inconciliáveis entre si (materialismo e espiritualismo, dualismo e monismo). O cristianismo quebrou estes moldes, sobretudo com a sua afirmação de que também a matéria, como o espírito, é criação do único Deus transcendente. Mais tarde, São Tomás desenvolveu uma metafísica da criação que descreve Deus como o próprio Ser subsistente - Ipsum Esse Subsistens. Como causa primeira, é absolutamente transcendente ao mundo e, ao mesmo tempo, em virtude da participação do Seu ser nas criaturas, está presente intimamente nelas, as quais dependem, em tudo, d'Aquele a que pertence a fonte do ser. Deus é superior summo meo e ao mesmo tempo, intimior intimo meo (Santo Agostinho, Confissões, 3,6,11; cf. Catecismo, 300).

«Por quem tudo foi feito»

A literatura sapiencial do Antigo Testamento apresenta o mundo como fruto da sabedoria de Deus (cf. Sb 9,9). «O mundo não é fruto duma qualquer necessidade, dum destino cego ou do acaso» (Catecismo, 295), mas tem uma inteligibilidade que a razão humana, participando na luz do Entendimento divino, pode captar, não sem esforço e num espírito de humildade e de respeito perante o Criador e a Sua obra (cf. Jb 42,3; cf. Catecismo, 299). Este desenvolvimento chega à sua expressão plena no Novo Testamento; ao identificar o Filho, Jesus Cristo, com o Logos (cf. Jo 1,1 ss), afirma que a sabedoria de Deus é uma Pessoa, o Verbo encarnado, por quem tudo foi feito (Jo 1,3). São Paulo formula esta relação do criado com Cristo, esclarecendo que todas as coisas foram criadas n'Ele, por Ele e para Ele (Col 1,16-17).

Há, pois, uma razão criadora na origem do cosmos (cf. Catecismo, 284) [5]. O cristianismo tem desde o início uma grande confiança na capacidade da razão humana para conhecer e uma enorme segurança em que jamais a razão - científica, filosófica, etc. - poderá chegar a conclusões contrárias à fé, pois ambas provêm de uma mesma origem.

Não é infrequente encontrarem-se pessoas que colocam falsas disjuntivas, como por exemplo, entre criação e evolução. Na realidade, uma adequada epistemologia não só distingue os âmbitos próprios das ciências naturais e da fé, mas, além disso, reconhece na filosofia um elemento necessário de mediação, pois as ciências, com o seu método e objeto próprios, não cobrem a totalidade do âmbito da razão humana e a fé, que se refere ao próprio mundo de que falam as ciências; necessita de categorias filosóficas [6] para se formular e entrar em diálogo com a racionalidade humana.

É, pois, lógico que desde o início, a Igreja procurasse o diálogo com a razão, uma razão consciente do seu caráter criado, pois não se deu a si própria a existência, nem dispõe, completamente, do seu futuro; uma razão aberta ao que a transcende, ou seja, à Razão originária. Paradoxalmente, uma razão fechada sobre si, que crê poder encontrar dentro de si a resposta às suas questões mais profundas, acaba por afirmar o sem- sentido da existência e por não reconhecer a inteligibilidade do real (niilismo, irracionalismo, etc.).

«Senhor que dá a vida»

«Acreditamos que ele [o mundo] procede da vontade livre de Deus, que quis fazer as criaturas participantes do Seu Ser, da Sua sabedoria e da Sua bondade: “porque Vós criastes todas as coisas e, pela vossa vontade, elas receberam a existência e foram criadas” (Ap 4,11) [...]. “O Senhor é bom para com todos e a sua misericórdia estende-se a todas as criaturas” (Sl 145, 9)» (Catecismo, 295). Como consequência, «saída da bondade divina, a criação partilha dessa bondade (“E Deus viu que isto era bom [... ] muito bom”: Gn 1,4.10.12.18.21.31). Porque a criação é querida por Deus como um dom orientado para o homem, como herança que lhe é destinada e confiada» (Catecismo, 299).

Este caráter de bondade e de dom livre permite descobrir na criação a atuação do Espírito - que «pairava sobre as águas» (Gn 1,2) - a Pessoa Dom na Trindade, Amor subsistente entre o Pai e o Filho. A Igreja confessa a sua fé na obra criadora do Espírito Santo, doador de vida e fonte de todo o bem [7].

A afirmação cristã da liberdade divina criadora permite superar as estreitezas de outras visões que, pondo uma necessidade em Deus, acabam por defender o fatalismo ou determinismo. Não há nada, nem “dentro” nem “fora” de Deus, que o obrigue a criar. Qual é, então, o fim que O move? Que pretendeu ao criar-nos?

1.2. «O mundo foi criado para a glória de Deus» (Concílio Vaticano I)

Deus criou tudo «não para aumentar a Sua glória mas para a manifestar e comunicar» (São Boaventura, Sent., 2,1,2,2,1). O Concílio Vaticano I (1870) afirma que «na sua bondade e pela sua força omnipotente, não para aumentar a sua felicidade, nem para adquirir a sua perfeição, mas para a manifestar pelos bens que concede às suas criaturas, Deus, no Seu libérrimo desígnio, criou do nada, simultaneamente, e desde o princípio do tempo uma e outra criatura - a espiritual e a corporal» (DS 3002; cf. Catecismo, 293).

«A glória de Deus está em que se realize esta manifestação e esta comunicação da sua bondade, em ordem às quais o mundo foi criado. Fazer de nós “filhos adotivos por Jesus Cristo. Assim aprouve à sua vontade, para que fosse enaltecida a glória da sua graça’ (Ef 1,5-6): “Porque a glória de Deus é o homem vivo e a vida do homem é a visão de Deus” (Santo Ireneu de Lião, Adversus haereses, 4,20,7)» (Catecismo, 294).

Longe de uma dialética de princípios contrapostos - como ocorre no dualismo de traço maniqueu e, também, no idealismo monista hegeliano - afirmar a glória de Deus como fim da criação não implica uma negação do homem, mas um pressuposto indispensável para a sua realização. O otimismo cristão mergulha as suas raízes na exaltação conjunta de Deus e do homem: «o homem é grande só se Deus é grande» [8]. Trata-se de um otimismo e de uma lógica que afirmam a absoluta prioridade do bem, mas que, nem por isso, são cegos perante a presença do mal no mundo e na história.

1.3. Conservação e providência. O mal

A criação não se reduz aos começos. «Depois da criação, Deus não abandona a criatura a si mesma. Não só lhe dá o ser e o existir, mas a cada instante a mantém no ser, lhe dá o agir e a conduz ao seu termo» (Catecismo, 301). A Sagrada Escritura compara esta atuação de Deus na história com a ação criadora (cf. Is 44,24; 45,8; 51,13). A literatura sapiencial explicita a ação de Deus que mantém na existência as suas criaturas. «E como poderia subsistir algo se não o quisésseis ou conservar-se aquilo que Vós não tivésseis chamado?» (Sb 11,25). São Paulo vai mais longe e atribui esta ação conservadora a Cristo: «Ele é antes de todas as coisas e todas as coisas subsistem por Ele» (Cl 1,17).

O Deus cristão não é um relojoeiro ou um arquiteto que, após ter realizado a sua obra, se desinteressasse dela. Estas imagens são próprias duma concepção deísta, segundo a qual Deus não se imiscui nos assuntos deste mundo. Mas isto supõe uma distorção do autêntico Deus criador, pois separam drasticamente a criação da conservação e do governo divino do mundo [9].

A noção de conservação “faz de ponte” entre a ação criadora e o governo divino do mundo (providência). Deus não só cria o mundo e o mantém na existência, mas além disso «conduz as suas criaturas para a perfeição última, à qual Ele as chamou» (Compêndio, 55). A Sagrada Escritura apresenta a soberania absoluta de Deus e testemunha constantemente o seu cuidado paterno, tanto nas coisas menores como nos grandes acontecimentos da história (cf. Catecismo, 303). Neste contexto, Jesus revela-Se como a providência “encarnada” de Deus, que atende, como Bom Pastor, as necessidades materiais e espirituais dos homens (Jo 10,11.14-15; Mt 14,13-14, etc.) e ensina-nos a abandonarmo-nos ao seu cuidado (Mt 6,31-33).

Se Deus cria, mantém e dirige tudo com bondade, donde provém o mal? «A esta questão, tão premente quanto inevitável, tão dolorosa como misteriosa, não é possível dar uma resposta rápida e satisfatória. É o conjunto da fé cristã que constitui a resposta a esta questão [...]. Não há nenhum pormenor da mensagem cristã que não seja, em parte, resposta ao problema do mal» (Catecismo, 309).

A criação não ficou acabada no princípio, mas Deus fê-la in statu viae, ou seja, dirigida a uma perfeição última ainda por alcançar. Para a realização dos Seus desígnios, Deus serve-se do concurso das criaturas e concede aos homens uma participação na sua providência, respeitando a sua liberdade mesmo que façam o mal (cf. Catecismo, 302, 307, 311). O realmente surpreendente é que Deus «na sua omnipotente providência pode tirar um bem das consequências de um mal» (Catecismo, 312). É misteriosa, mas é uma enorme verdade que «todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus» (Rm 8, 28) [10].

A experiência do mal parece manifestar uma tensão entre a omnipotência e a bondade divinas na sua atuação na história. Aquela recebe resposta, certamente misteriosa, no evento da Cruz de Cristo, que revela o “modo de ser” de Deus e é, portanto, fonte de sabedoria para o homem (sapientia crucis).

1.4. Criação e salvação

A criação é «o primeiro passo para a Aliança do Deus único com o seu povo» (Compêndio, 51). Na Bíblia a criação está aberta à atuação salvífica de Deus na história, que tem a sua plenitude no mistério pascal de Cristo e que alcançará a sua perfeição final no fim dos tempos. A criação está feita com vista ao Sábado, o sétimo dia em que o Senhor descansou, dia em que culmina a primeira criação e que se abre ao oitavo dia em que começa uma obra ainda mais maravilhosa: a Redenção, a nova criação em Cristo (2 Cor 5,7; cf. Catecismo, 345-349).

Mostra-se, assim, a continuidade e unidade do desígnio divino de criação e redenção. Entre ambas não há nenhum hiato, pois o pecado dos homens não corrompeu totalmente a obra divina, mas o vínculo. A relação entre ambas - criação e salvação - pode expressar-se dizendo que, por um lado, a criação é o primeiro acontecimento salvífico e, por outro, que a salvação redentora tem as características de uma nova criação. Esta relação ilumina importantes aspectos da fé cristã, como a ordenação da natureza à graça ou a existência de um único fim sobrenatural do homem.

2. A realidade criada

O efeito da ação criadora de Deus é a totalidade do mundo criado, “céus e terra” (Gn 1,1). Deus é «Criador de todas as coisas, das visíveis e das invisíveis, espirituais e corporais; que pela sua omnipotente virtude ao mesmo tempo, desde o princípio do tempo, criou do nada uma e outra criatura, a espiritual e a corporal, ou seja, a angélica e a mundana e depois a humana, como comum, composta de espírito e de corpo» [11].

O cristianismo supera quer o monismo (que afirma que a matéria e o espírito se confundem, que a realidade de Deus e do mundo se identificam), quer o dualismo (segundo o qual matéria e espírito são princípios originários opostos).

A ação criadora pertence à eternidade de Deus, mas o efeito de tal ação está marcado pela temporalidade. A Revelação afirma que o mundo foi criado como mundo com um início temporal [12], quer dizer, que o mundo foi criado juntamente com o tempo, o que se mostra muito congruente com a unidade do desígnio divino de se revelar na história da salvação.

2.1. O mundo espiritual: os anjos

«A existência de seres espirituais, não corporais, que a Sagrada Escritura chama habitualmente anjos, é uma verdade de fé. O testemunho da Escritura é tão claro como a unanimidade da Tradição» (Catecismo, 328). Ambos os mostram na sua dupla função de louvar a Deus e serem mensageiros do seu desígnio salvador. O Novo Testamento apresenta os anjos em relação com Cristo, criados por Ele e para Ele (Col 1,16), rodeiam a vida de Jesus desde o seu nascimento até à Ascensão, sendo os anunciadores da sua segunda vinda gloriosa (cf. Catecismo, 333).

Assim, estão também presentes desde o início da vida da Igreja, que beneficia da sua ajuda poderosa e na sua liturgia une-se a eles na adoração a Deus. A vida de cada homem é acompanhada, desde o seu nascimento, por um anjo protetor e pastor para o guiar na vida (cf. Catecismo, 334-336).

A teologia - especialmente São Tomás de Aquino, o Doutor Angélico - e o Magistério da Igreja aprofundaram na natureza destes seres puramente espirituais, dotados de inteligência e vontade, afirmando que são criaturas pessoais e imortais que excedem, em perfeição, todas as criaturas visíveis (cf. Catecismo, 330).

Os anjos foram criados num estado de prova. Alguns rebelaram-se irrevogavelmente contra Deus. Caídos no pecado, Satanás e os outros demônios - que tinham sido criados bons, mas por si próprios se fizeram maus - instigaram os nossos primeiros pais a pecar (cf. Catecismo, 391-395).

2.2. O mundo material

Deus «criou o mundo visível em toda a sua riqueza, a sua diversidade e a sua ordem. A Sagrada Escritura apresenta a obra do Criador, simbolicamente, como uma sequência de seis dias “de trabalho” divino que terminam no “repouso” do sétimo dia (Gn 1,1 -2,4)» (Catecismo, 337). «A Igreja, em diversas ocasiões, viu-se na necessidade de defender a bondade da criação, mesmo a do mundo material (cf. DS 286; 455-463; 800; 1333; 3002)» (Catecismo, 299).

«Pela própria condição da criação, todas as coisas estão dotadas de firmeza, verdade e bondade próprias e de uma ordem» (GS 36,2). A verdade e bondade do criado procedem do único Deus Criador que é, ao mesmo tempo, Trino. Assim, o mundo criado é um certo reflexo da atuação das Pessoas divinas: «em todas as criaturas se encontra uma representação da Trindade à maneira de vestígio» [13].

O cosmos tem uma beleza e uma dignidade, enquanto obra de Deus. Há solidariedade e hierarquia entre os seres, as quais hão de conduzir à atitude contemplativa de respeito para com o criado e para com as leis naturais que o regem (cf. Catecismo, 339, 340, 342, 354). Certamente, o cosmos foi criado para o homem, que recebeu de Deus o mandato de dominar a terra (cf. Gn 1,28). Tal mandato não é um convite à exploração despótica da natureza, mas à participação no poder criador de Deus: mediante o seu trabalho o homem colabora no aperfeiçoamento da criação.

O cristão partilha das justas exigências que a sensibilidade ecológica pôs em evidência nas últimas décadas, sem cair numa vaga divinização do mundo e afirmando a superioridade do homem sobre o resto dos seres como «o ponto culminante da obra da criação» (Catecismo, 343).

2.3. O homem

A pessoa humana goza de peculiar posição na obra criadora de Deus, ao participar, ao mesmo tempo, da realidade material e espiritual. A Escritura só nos diz que Deus o criou «à Sua imagem e semelhança» (Gn 1,26). Foi posto por Deus à cabeça da realidade visível e goza de uma dignidade especial, pois «de todas as criaturas visíveis, só o homem é capaz de conhecer e amar o seu Criador; é a única criatura sobre a terra que Deus quis por si mesma; só ele é chamado a partilhar, pelo conhecimento e pelo amor, a vida de Deus. Com este fim foi criado e tal é a razão fundamental da sua dignidade» (Catecismo, 356; cf. ibidem, 1701-1703).

Homem e mulher, na sua diversidade e complementaridade, queridas por Deus, gozam da mesma dignidade de pessoas (cf. Catecismo, 357, 369, 372). Em ambos, se dá a união substancial de corpo e alma, sendo esta a forma do corpo. Por ser espiritual, a alma humana é criada de modo imediato por Deus - e não “produzida” pelos pais, nem sequer é preexistente - e é imortal (cf. Catecismo, 366). Os dois pontos, espiritualidade e imortalidade, podem ser demonstrados filosoficamente. Portanto, é um reducionismo afirmar que o homem procede exclusivamente da evolução biológica (evolucionismo absoluto). Na realidade, há saltos ontológicos que não podem explicar-se apenas com a evolução. A consciência moral e a liberdade do homem, por exemplo, manifestam a sua superioridade sobre o mundo material e são a amostra da sua especial dignidade.

A verdade da criação ajuda a superar quer a negação da liberdade - determinismo - quer o extremo contrário de uma exaltação indevida da mesma: a liberdade humana é criada, não absoluta e existe na mútua dependência com a verdade e o bem. O sonho de uma liberdade como puro poder e arbitrariedade corresponde a uma imagem deformada, não só do homem mas, também, de Deus.

Mediante a sua atividade e o seu trabalho, o homem participa do poder criador de Deus [14]. Além disso, a sua inteligência e vontade são uma participação, uma chispa, da sabedoria e amor divinos. Enquanto o resto do mundo visível é um mero vestígio da Trindade, o ser humano constitui uma autêntica imagem, imago Trinitatis.

1.   Algumas consequências práticas da verdade sobre a criação

A radicalidade da ação criadora e salvadora de Deus exige do homem uma resposta que tenha esse mesmo caráter de totalidade: “amarás o Senhor teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças” (Dt 6,5; cf. Mt 22,37; Mc 12,30; Lc 10,27). É nesta correspondência que se encontra a verdadeira felicidade, o único que preenche plenamente a sua liberdade.

Ao mesmo tempo, a universalidade da ação divina tem um sentido intensivo e extensivo: Deus cria e salva todo o homem e todos os homens. Corresponder à chamada de Deus, a amá-Lo com todo o nosso ser está intrinsecamente unido a levar o Seu amor a todo o mundo [15].

O conhecimento e admiração do poder, sabedoria e amor divinos conduz o homem a uma atitude de reverência, adoração e humildade, a viver na presença de Deus sabendo-se filho seu. Ao mesmo tempo, a fé na providência leva o cristão a uma atitude de confiança filial em Deus em todas as circunstâncias: com agradecimento diante dos bens recebidos e com simples abandono frente ao que possa parecer mal, pois Deus retira dos males bens maiores.

Consciente de que tudo foi criado para a glória de Deus, o cristão procura conduzir-se em todas as suas ações procurando o fim verdadeiro que enche a sua vida de felicidade: a glória de Deus, não a própria vanglória. Esforça-se por retificar a intenção nas suas ações, de modo que possa dizer-se que o único fim da sua vida é este: Deo omnis gloria! [16]

Deus quis pôr o homem à frente da Sua criação outorgando-lhe o domínio sobre o mundo, de maneira que a aperfeiçoe com o seu trabalho. A atividade humana pode ser, portanto, considerada como uma participação na obra criadora divina.

A grandeza e beleza das criaturas suscita nas pessoas admiração e desperta nelas a questão sobre a origem e o destino do mundo e do homem, fazendo-se entrever a realidade do seu Criador. O cristão, no seu diálogo com os não crentes, pode suscitar estas questões para que as inteligências e os corações se abram à luz do Criador. Da mesma forma, no seu diálogo com os crentes das diversas religiões, o cristão encontra na verdade da criação um excelente ponto de partida, pois trata-se de uma verdade em parte partilhada e que constitui a base para a afirmação de alguns valores morais fundamentais da pessoa.

Santiago Sanz

Bibliografia básica
Catecismo da Igreja Católica, 279-374.
Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, 51-72.
DS, n. 125, 150, 800, 806, 1333, 3000-3007, 3021-3026, 4319, 4336, 4341.
Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, 10-18, 19-21, 36-39.
João Paulo II, Creo en Dios Padre. Catequesis sobre el Credo (I), Palabra, Madrid 1996, 181-218.

Leituras recomendadas
Santo Agostinho, Confissões, livro XII.
São Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I, qq. 44-46.
São Josemaria, Homilia «Amar o mundo apaixonadamente» em Temas Actuais do Cristianismo, 113-123. Joseph Ratzinger, Creación y pecado, Eunsa, Pamplona 1992.
João Paulo II, Memória e Identidade, Bertrand Editora, Lisboa 2005.

Notas
[1] Entre outras muitas intervenções, cf. Bento XVI, Discurso aos membros da Cúria romana, 22-XII-2005; Fé, Razão e Universidade (Discurso em Regensburg), 12-IX-2006; Angelus, 28-I-2007.
[2] Cf. São Tomás, De Potentia, q. 3, a. 3, co.; o Catecismo segue este mesmo esquema.
[3] Cf. São Tomás, Super Sent., lib. 1, d. 14, q. 1, a. 1, co.: «são a causa e a razão da processão das criaturas».
[4] Por isso se diz que Deus não necessita de instrumentos para criar, já que nenhum instrumento possui a potência infinita necessária para criar. Daí também que, quando se fala, por exemplo, do homem como criador ou inclusive como capaz de participar no poder criador de Deus, o emprego do adjetivo “criador” não é analógico mas metafórico.
[5] Este ponto aparece com frequência nos ensinamentos de Bento XVI, por exemplo, Homilia em Regensburg, 12-IX-2006; Discurso em Verona, 19-X-2006; Encontro com o clero da diocese de Roma, 22-II-2007; etc.
[6] Tanto o racionalismo cientificista como o fideísmo acientífico necessitam de uma correção da filosofia. Além disso, há de evitar-se também a falsa apologética de quem vê forçadas concordâncias, procurando nos dados que a ciência traz uma verificação empírica ou uma demonstração das verdades de fé, quando, na realidade, como dissemos, se trata de dados que pertencem a métodos e disciplinas distintas.
[7] Cf. João Paulo II, Carta Encíclica Dominum et Vivificantem, 18-V-1986, 10.
[8] Bento XVI, Homilia, 15-VIII-2005.
[9] O deísmo implica um erro na noção metafísica de criação, pois esta, enquanto doação de ser, leva consigo uma dependência ontológica por parte da criatura, que não é separável da sua continuação no tempo. Ambas constituem um mesmo ato, mesmo quando possamos distingui-las conceptualmente: «a conservação das coisas por Deus não se dá por alguma ação nova, mas pela continuação da ação que dá o ser, que é certamente uma ação sem movimento e sem tempo» (São Tomás, Summa Theologiae, I, q. 104, a. 1, ad 3).
[10] Em continuidade com a experiência de tantos santos da história da Igreja, esta expressão paulina encontrava-se frequentemente nos lábios de São Josemaria, que vivia e animava assim a viver numa gozosa aceitação da vontade divina (cf. São Josemaria, Sulco, 127; Via Sacra, IX, 4; Amigos de Deus, 119). Por outro lado, o último livro de João Paulo II, Memória e Identidade, constitui uma profunda reflexão sobre a atuação da providência divina na história dos homens, segundo aquela outra asserção de São Paulo: «Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem» (Rm 12, 21).
[11] Concílio Lateranense IV (1215), DS 800.
[12] Assim o ensina o Concílio Lateranense IV e, referindo-se a ele, o Concílio Vaticano I (cf. respectivamente DS 800 y 3002). Trata-se de uma verdade revelada, que a razão não pode demonstrar, como ensinou São Tomás na famosa disputa medieval sobre a eternidade do mundo: cf. Contra Gentiles, lib. 2, cap. 31-38; e o seu opúsculo filosófico De Aeternitate Mundi.
[13] São Tomás, Summa Theologiae, I, q. 45, a. 7, co.; cf. Catecismo, 237.
[14] Cf. São Josemaria, Amigos de Deus, 57.
[15] Que o apostolado é superabundância da vida interior (cf. São Josemaria, Caminho, 961), manifesta-se como a correlação da dinâmica ad intra - ad extra do atuar divino, quer dizer, da intensidade do ser, da sabedoria e do amor trinitário que transborda para as suas criaturas.
 [16] Cf. São Josemaria, Caminho, 780; Sulco, 647; Forja, 611, 639, 1051.