terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Material de apoio 01

Ontem (28/01/2013) falamos da religiosidade do ser humano, das provas da existência de Deus e também sobre o início da caminhada do Povo de Israel no encontro do Deus que vai se revelando de acordo com a pedagogia divina. Falamos também das fichas de estudo da Opus Dei, que nos servem de excelente subsídio para o estudo da fé cristã. Segue abaixo a primeira a primeira destas fichas, só lembrando que estas fichas são redigidas em português de Portugal, portanto, notarão algumas características próprias do linguajar de além mar:




TEMA 1. A existência de Deus

A dimensão religiosa caracteriza o ser humano. Purificadas da superstição, as expressões da religiosidade humana manifestam que existe um Deus criador.

1. A dimensão religiosa do ser humano

A dimensão religiosa caracteriza o ser humano desde as suas origens. Purificadas da superstição – afinal devida à ignorância e ao pecado –, as expressões da religiosidade humana manifestam a convicção de que existe um Deus criador, do qual depende o mundo e a nossa existência pessoal. Se é verdade que o politeísmo acompanhou muitas fases da história humana, também é verdade que a dimensão mais profunda da religiosidade humana e da sabedoria filosófica procuraram a justificação radical do mundo e da vida humana num único Deus, fundamento da realidade e cumprimento da nossa aspiração à felicidade (cf. Catecismo da Igreja Católica, 28) [1].

Apesar da sua diversidade, nas expressões artísticas, filosóficas, literárias e outras – presentes na cultura dos povos –, em todas é comum a reflexão sobre Deus e sobre os temas centrais da existência humana: a vida e a morte, o bem e o mal, o destino último e o sentido de todas as coisas [2].

Como estas manifestações do espírito humano testemunham ao longo da história, pode dizer-se que a referência a Deus pertence à cultura humana e constitui uma dimensão essencial da sociedade e dos homens. A liberdade religiosa representa, portanto, o primeiro dos direitos e a procura de Deus, o primeiro dos deveres: todos os homens «são levados pela própria natureza, e também moralmente, a procurar a verdade, antes de mais a que diz respeito à religião. Têm também a obrigação de aderir à verdade conhecida e de ordenar toda a sua vida segundo as suas exigências» [3]. A negação de Deus e a tentativa de O excluir da cultura, da vida social e civil são fenómenos relativamente recentes, limitados a algumas áreas do mundo ocidental. O facto de que as grandes interrogações religiosas e existenciais permaneçam invariáveis no tempo [4] desmente a ideia de que a religião esteja circunscrita a uma fase ―infantil da história humana, destinada a desaparecer com o progresso do conhecimento.

O cristianismo assume tudo quanto há de bom na investigação e na adoração de Deus manifestadas historicamente pela religiosidade humana, mostrando o seu verdadeiro significado, o de um caminho para o único e verdadeiro Deus, que se revelou na história da salvação entregue ao povo de Israel e que veio ao nosso encontro fazendo-Se homem em Jesus Cristo, Verbo Encarnado [5].

2. Das criaturas materiais a Deus

O intelecto humano pode conhecer a existência de Deus aproximando-se d’Ele através de um caminho que tem como ponto de partida o mundo criado e que possui dois itinerários, as criaturas materiais e a pessoa humana. Embora este caminho tenha sido desenvolvido especialmente por autores cristãos, os itinerários que partindo da natureza e das atividades do espírito humano levam até Deus, foram expostos e percorridos por muitos filósofos e pensadores de diversas épocas e culturas.
As vias para a existência de Deus também se chamam ―provas, não no sentido que a ciência matemática ou natural atribui a este termo, mas enquanto argumentos filosóficos convergentes e convincentes, que o sujeito compreende, com maior ou menor profundidade dependendo da sua formação específica (cf. Catecismo da Igreja Católica, 31). Que as provas da existência de Deus não possam entender-se no mesmo sentido das provas utilizadas pelas ciências experimentais, deduz-se com clareza do facto de que Deus não é objeto do nosso conhecimento empírico.

Cada via para a existência de Deus atinge apenas um aspecto concreto ou dimensão da realidade absoluta de Deus, o do específico contexto filosófico no qual a via se desenvolve: «partindo do movimento e do devir, da contingência, da ordem e da beleza do mundo pode-se chegar ao conhecimento de Deus como origem e fim do universo» (Catecismo, 32). A riqueza e a incomensurabilidade de Deus são tais que nenhuma destas vias por si mesma pode chegar a uma imagem completa e pessoal de Deus, mas somente a alguma faceta dela: existência, inteligência, providência, etc.

Entre as chamadas vias cosmológicas, as mais conhecidas, são as célebres ―cinco vias elaboradas por São Tomás de Aquino, que recolhem, em boa medida, as reflexões de filósofos anteriores a ele; para a sua compreensão é necessário conhecer alguns elementos de metafísica [6]. As primeiras duas vias propõem a ideia de que as cadeias causais – passagem de potência a ato, passagem da causa eficiente a efeito – que observamos na natureza não podem prosseguir do passado até ao infinito, mas devem, antes, apoiar-se num primeiro motor e numa causa primeira; a terceira, partindo da observação da contingência e da limitação dos entes naturais, deduz que a sua causa deve ser um Ente incondicionado e necessário; a quarta, considerando os graus de perfeição participada que se encontram nas coisas, deduz a existência de uma fonte para todas estas perfeições; a quinta via, observando a ordem e a finalidade presentes no mundo, consequência da especificidade e estabilidade das suas leis, deduz a existência de uma inteligência ordenadora que também seja causa final de tudo.

Estes e outros itinerários análogos foram propostos por diversos autores com diferentes linguagens e diversas formas até aos nossos dias. Portanto, mantêm a sua atualidade, ainda que para os compreender seja necessário partir de um conhecimento das coisas baseado no realismo – em contraposição com formas de pensamento ideológico – que não reduza o conhecimento da realidade apenas ao plano empírico experimental – evitando o reducionismo ontológico –, logo que o pensamento humano possa, afinal, ascender dos efeitos visíveis para as causas invisíveis (afirmação do pensamento metafísico).

O conhecimento de Deus é também acessível ao sentido comum, quer dizer, ao pensamento filosófico espontâneo que todo o ser humano exercita, como resultado da experiência existencial de cada um: a maravilha diante da beleza e da ordem da natureza, a gratidão pelo dom gratuito da vida, o fundamento e a razão do bem e do amor. Este tipo de conhecimento é também importante para captar a que sujeito se referem as provas filosóficas da existência de Deus: São Tomás, por exemplo, termina as suas cinco vias unindo-as com a afirmação: «e isto é o que todos chamam Deus».

O testemunho da Sagrada Escritura (cf. Sb 13,1-9; Rm 1,18-20; At 17,22-27) e os ensinamentos do Magistério da Igreja confirmam que o intelecto humano pode chegar, ao conhecimento da existência do Deus criador, partindo das criaturas [7] (cf. Catecismo, 36-38). Ao mesmo tempo, quer a Escritura, quer o Magistério, advertem que o pecado e as más disposições morais podem tornar mais difícil este reconhecimento.

3. O espírito humano manifesta Deus

O ser humano percebe a sua singularidade e preeminência sobre o resto da natureza. Embora partilhe muitos aspectos da sua vida biológica com outras espécies animais, reconhece-se único na sua fenomenologia: reflecte sobre si próprio, é capaz de progresso cultural e técnico, percebe a moralidade das próprias acções, ultrapassa, com o seu conhecimento e a sua vontade, mas, sobretudo, com a sua liberdade, o resto do cosmos material [8]. Ou seja, o ser humano é sujeito de uma vida espiritual que transcende a matéria da qual, no entanto, depende [9]. Desde as origens, a cultura e a religiosidade dos povos explicaram esta transcendência do ser humano afirmando a sua dependência de Deus, do qual a vida humana possui um reflexo. Em sintonia com este sentir comum da razão, a Revelação judaico-cristã ensina que o ser do homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26-28).

A pessoa humana está, ela própria, a caminhar para Deus. Existem itinerários que conduzem a Deus partindo da própria experiência existencial: «Com a sua abertura à verdade e à beleza, com o seu sentido do bem moral, com a sua liberdade e a voz da sua consciência, com a sua ânsia de infinito e de felicidade, o homem interroga-se sobre a existência de Deus.

Nestas aberturas, ele detecta sinais da sua alma espiritual» (Catecismo, 33).
A presença de uma consciência moral que aprova o bem que fazemos e censura o mal que realizamos ou queríamos realizar, leva a reconhecer um Sumo bem ao qual estamos chamados a conformar-nos, do qual a nossa consciência é como que o seu mensageiro. Partindo da experiência da consciência humana e sem conhecer a Revelação bíblica, vários pensadores desenvolveram, desde a antiguidade, uma reflexão sobre a dimensão ética da ação do homem, reflexão essa de que todo o homem está capacitado enquanto criado à imagem de Deus.

Juntamente com a própria consciência, o ser humano reconhece a sua liberdade pessoal, como condição da própria atuação moral. Nesse reconhecer-se livre, a pessoa humana lê em si a correspondente responsabilidade das próprias ações e a existência de Alguém, diante de quem há-de ser responsável. Este Alguém deve ser superior à natureza material e não inferior, e mais elevado que os nossos semelhantes, também chamados a serem responsáveis como nós. A existência da liberdade e da responsabilidade humana conduzem à existência de um Deus garante do bem e do mal, Criador, legislador e remunerador.

No contexto cultural atual, nega-se frequentemente a verdade da liberdade humana, reduzindo a pessoa a um animal um pouco mais desenvolvido, mas cuja atuação estaria regulada fundamentalmente por impulsos necessários; ou identificam a sede de vida espiritual – mente, consciência, alma – com a corporeidade dos órgãos cerebrais e dos processos neurofisiológicos, negando, desse modo, a existência da moralidade do homem. A esta visão pode responder-se com argumentos que demonstram, no plano da razão e da fenomenologia humana, a autotranscedência da pessoa, o livre arbítrio que opera também nas escolhas condicionadas pela natureza e a impossibilidade de reduzir a mente ao cérebro.

Também ante a presença do mal e da injustiça no mundo, muitos vêm, hoje em dia, uma prova da não existência de Deus, porque se Ele existisse não o permitiria. Na realidade, essa dor e esta questão são também ―vias para chegar a Deus. A pessoa, com efeito, sente o mal e a injustiça como privações, como situações dolorosas não devidas, que reclamam um bem e uma justiça a que se aspira. Pois se a estrutura mais íntima do nosso ser não aspirasse ao bem, não veríamos no mal um dano e uma privação.

No ser humano existe um desejo natural de verdade, de bem e de felicidade, que são manifestações da nossa aspiração natural de ver Deus. Se tal pretensão ficasse frustrada, a criatura humana ficaria convertida num ser existencialmente contraditório, já que estas aspirações constituem o núcleo mais profundo da vida espiritual e da dignidade da pessoa. A sua presença no mais profundo do coração mostram a existência de um Criador que nos chama a Si através da esperança n’Ele. Se as vias ―cosmológicas não asseguram a possibilidade de chegar a Deus enquanto ser pessoal, as vias antropológicas, que partem do homem e dos seus desejos naturais, deixam antever que o Deus do qual reconhecemos a nossa dependência, deve ser uma pessoa capaz de amar, um ser pessoal diante de criaturas pessoais.

A Sagrada Escritura contém ensinamentos explícitos sobre a existência de uma lei moral inscrita por Deus no coração do homem (cf. Ecl 15,11-20; Sl 19; Rm 2,12-16). A filosofia de inspiração cristã denominou-a ―lei moral natural, acessível aos homens de todas as épocas e culturas, embora o seu reconhecimento, como no caso da existência de Deus, possa permanecer obscuro devido ao pecado. O Magistério da Igreja sublinhou repetidamente a existência da consciência humana e da liberdade como vias para chegar a Deus [10].

4. A negação de Deus: as causas do ateísmo

As diversas argumentações filosóficas empregadas para ―provar a existência de Deus não levam necessariamente à fé em Deus, mas asseguram apenas que tal fé é razoável. E isto por vários motivos:

a) conduzem o homem a reconhecer algumas características filosóficas da imagem de Deus – bondade, inteligência, etc. – entre as quais a sua própria existência, mas não indicam nada sobre Quem seja o ser pessoal para o qual se dirige o ato de fé;

b) a fé é a resposta livre do homem a Deus que se revela, não uma dedução filosófica necessária;

c) o próprio Deus é causa da fé: é Ele quem se revela gratuitamente e move com a Sua graça o coração do homem para que adira a Ele;

d) há-de considerar-se a obscuridade e a incerteza com que o pecado fere a razão do homem como obstáculos, quer do reconhecimento da existência de Deus, quer da resposta de fé à Sua Palavra (cf. Catecismo, 37). Por estes motivos, particularmente o último, é sempre possível uma negação de Deus por parte do homem [11].

O ateísmo possui uma manifestação teórica (tentativa de negar positivamente Deus, por via racional) e uma prática (negar Deus com o próprio comportamento, vivendo como se não existisse). A profissão de ateísmo positivo como consequência de uma análise racional de tipo científico ou empírico é contraditória, porque – como se disse – Deus não é objeto do saber científico-experimental. A negação positiva de Deus, a partir da racionalidade filosófica, é possível por parte de visões específicas apriorísticas da realidade, de carácter quase sempre ideológico, antes de mais, o materialismo. A incongruência destas visões pode pôr-se em evidência com a ajuda da metafísica e de uma gnoseologia realista.

Uma causa muito difundida pelo ateísmo positivo é considerar que a afirmação de Deus supõe uma penalização para o homem: se Deus existe, então não seríamos livres, nem gozaríamos de plena autonomia na existência terrena. Este ponto de vista ignora que a dependência da criatura de Deus fundamenta a liberdade e a autonomia da criatura [12]. O contrário é que é verdadeiro: como ensina a história dos povos e a nossa recente época cultural, quando se nega Deus termina-se negando também o homem e a sua dignidade transcendente.

Outros chegam à negação de Deus considerando que a religião, especificamente o cristianismo, representa um obstáculo ao progresso humano porque é fruto da ignorância e da superstição. A esta objecção pode responder-se a partir de bases históricas: é possível mostrar a influência positiva da Revelação cristã sobre a concepção da pessoa humana e os seus direitos, ou mesmo sobre a origem e o progresso das ciências. Por parte da Igreja Católica, a ignorância foi sempre considerada, e com razão, um obstáculo à verdadeira Fé. Em geral, os que negam Deus para afirmar o aperfeiçoamento e o avanço do homem, fazem-no para defender uma visão imanente do progresso histórico, que tem como fim a utopia política ou um bem-estar puramente material, que são incapazes de satisfazer plenamente as expectativas do coração humano.

Entre as causas do ateísmo, especialmente do ateísmo prático, deve incluir-se também o mau exemplo dos crentes, «na medida em que, pela negligência na educação da sua fé, ou por exposições falaciosas da doutrina, ou ainda pelas deficiências da sua vida religiosa, moral e social, se pode dizer que esconderam, em vez de revelar, o autêntico rosto de Deus e da religião» [13]. De modo positivo, a partir do Concílio Vaticano II, a Igreja assinalou sempre o testemunho dos cristãos como o principal fator para realizar uma necessária ―nova evangelização [14].  

5. Agnosticismo e a indiferença religiosa

O agnosticismo, difundido especialmente nos ambientes intelectuais, defende que a razão humana nada pode concluir sobre Deus e a sua existência. Com frequência, os seus defensores empenham-se na vida pessoal e social, mas sem nenhuma referência a um fim último, procurando assim viver um humanismo sem Deus. A posição agnóstica acaba, com frequência, por se identificar com o ateísmo prático. De resto, quem pretendesse orientar os fins parciais do próprio viver quotidiano sem nenhum tipo de compromisso para que tende naturalmente o fim último dos próprios atos, na realidade teria que dizer-se que, no fundo, já elegeu um fim, de carácter imanente, para a própria vida. A posição agnóstica merece, de qualquer modo, respeito, se bem que os seus defensores devem ser ajudados a demonstrar a retidão da sua não-negação de Deus, mantendo uma abertura à possibilidade de reconhecer a Sua existência e revelação na história.

A indiferença religiosa – também chamada ―irreligiosidade representa hoje a principal manifestação de incredulidade e como tal, recebeu uma crescente atenção por parte do Magistério da Igreja [15]. O tema de Deus não se toma a sério, ou não se toma em absoluta consideração porque é sufocado, na prática, por uma vida orientada para os bens materiais. A indiferença religiosa coexiste com uma certa simpatia pelo sagrado, e talvez pelo pseudo-religioso, desfrutados de um modo moralmente descuidado, como se fossem bens de consumo. Para manter por longo tempo uma posição de indiferença religiosa, o ser humano necessita de contínuas distrações e, assim, não se deter nos problemas existenciais mais importantes, afastando-os quer da própria vida quotidiana quer da própria consciência: o sentido da vida e da morte, o valor moral das próprias ações, etc. Mas, como na vida de uma pessoa há sempre acontecimentos que ―marcam a diferença (paixões, paternidade e maternidade, mortes prematuras, dores e alegrias, etc.), a posição de indiferentismo religioso não é sustentável ao longo de toda a vida, porque não se pode evitar interrogar-se sobre Deus, pelo menos, alguma vez. Partindo de tais eventos existencialmente significativos, é necessário ajudar o indiferente a abrir-se com seriedade à procura e afirmação de Deus.

6. O pluralismo religioso: há um único e verdadeiro Deus, que se revelou em Jesus Cristo

A religiosidade humana – que, quando é autêntica, é caminho para o reconhecimento do único Deus – expressou-se e manifesta-se na história e na cultura dos povos, de formas diversas e, por vezes, também no culto de diferentes imagens ou ideias da divindade. As religiões da terra que manifestam a procura sincera de Deus e respeitam a dignidade transcendente do homem devem ser respeitadas: a Igreja Católica considera que nelas está presente uma faísca, quase uma participação da Verdade divina [16]. Ao aproximar-se das diversas religiões da terra, a razão humana sugere um oportuno discernimento: reconhecer a presença de superstição e de ignorância, de formas de irracionalidade, de práticas que não estão de acordo com a dignidade e liberdade da pessoa humana.

O diálogo inter-religioso não se opõe à missão e à evangelização. Mais, respeitando a liberdade de cada um, a finalidade do diálogo há-de ser sempre o anúncio de Cristo. As sementes de verdade que as religiões não cristãs podem conter são, de facto, sementes da Única Verdade que é Cristo. Portanto, essas religiões têm o direito de receber a revelação e ser conduzidas à maturidade mediante o anúncio de Cristo, caminho, verdade e vida. No entanto, Deus não nega a salvação aos que, ignorando sem culpa o anúncio do Evangelho, vivem segundo a lei moral natural, reconhecendo o seu fundamento no único e verdadeiro Deus [17].

No diálogo inter-religioso o cristianismo pode proceder mostrando que as religiões da terra, enquanto expressões autênticas do vínculo com o verdadeiro e único Deus, alcançam no cristianismo o seu cumprimento. Somente em Cristo, Deus revela o homem ao próprio homem, oferece a solução para os seus enigmas, desvenda-lhe o sentido profundo das suas aspirações. Ele é o único mediador entre Deus e os homens [18].

O cristão pode enfrentar o diálogo inter-religioso com optimismo e esperança, enquanto sabe que todo o ser humano foi criado à imagem do único e verdadeiro Deus e que cada um, se sabe refletir no silêncio do seu coração, pode escutar o testemunho da própria consciência, que também conduz ao único Deus, revelado em Jesus Cristo. «Nasci e vim ao mundo – afirma Jesus diante de Pilatos – para dar testemunho da verdade; todo aquele que está na verdade ouve a minha voz» (Jo 18,37). Neste sentido, o cristão pode falar de Deus sem risco de intolerância, porque o Deus que ele exorta a reconhecer na natureza e na consciência de cada um, o Deus que criou o céu e a terra, é o mesmo Deus da história da salvação, que se revelou ao povo de Israel e se fez homem em Cristo. Este foi o itinerário seguido pelos primeiros cristãos: recusaram que se adorasse Cristo como mais um entre os deuses do Panteão romano, porque estavam convencidos da existência de um único e verdadeiro Deus; e empenharam-se ao mesmo tempo em mostrar que o Deus entrevisto pelos filósofos como causa, razão e fundamento do mundo, era e é o próprio Deus de Jesus Cristo [19].

Giuseppe Tanzella-Nitti

Bibliografia básica
Catecismo da Igreja Católica, 27-49
Concílio Vaticano II, Const. Gaudium et Spes, 4-22
João Paulo II, Enc. Fides et Ratio, 14-IX-1998, 16-35.
Bento XVI, Enc. Spe Salvi, 30-XI-2007, 4-12.

Notas
[1] Cf. João Paulo II, Enc. Fides et Ratio, 14-IX-1998, 1.
[2] «Para além de todas as diferenças que caracterizam os indivíduos e os povos, há uma fundamental dimensão comum, já que as várias culturas, na realidade, não são senão modos diversos de enfrentar a questão do significado da existência pessoal. É precisamente aqui que podemos identificar uma fonte do respeito que é devido a cada cultura e a cada nação: toda a cultura é um esforço de reflexão sobre o mistério do mundo e, em particular, do homem: é um modo de expressar a dimensão transcendente da vida humana. O coração de cada cultura está constituído pela sua aproximação ao maior dos mistérios: o mistério de Deus», João Paulo II, Discurso na O.N.U., Nova Iorque, 5-X-1995, «Magisterio», XVIII,2 (1995) 730-744, n. 9.
[3] Concílio Vaticano II, Decl. Dignitatis Humanae, 2.
[4] Cf. Concílio Vaticano II, Const. Gaudium et Spes, 10.
[5] Cf. João Paulo II, Carta Ap. Tertio Millennio Adveniente, 10-XI-1994, 6; Enc. Fides et Ratio, 2.
[6] Cf. São Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I, q. 2, a. 3; Contra Gentiles, I, c. 13. Para uma exposição detalhada remete-se o leitor para estas duas referências de São Tomás e para algum manual de Metafísica ou de Teologia Natural.
[7] Cf. Concílio Vaticano I, Const. Dei Filius, 24-IV-1870, DH 3004; Motu Proprio Sacrorum Antistitum, 1-IX-1910, DH 3538; Congregação para a Doutrina da Fé, Inst. Donum Veritatis, 24-V-1990, 10; Enc. Fides et Ratio, 67. 7
[8] «Agradecidos por nos apercebermos da felicidade a que estamos chamados, aprendemos que todas as criaturas foram tiradas do nada por Deus e para Deus: quer as racionais, os homens, apesar de tão frequentemente perdermos a razão; quer as irracionais, as que percorrem a superfície da terra, ou habitam nas entranhas do mundo, ou cruzam o azul do céu, algumas delas até fitarem o Sol nas alturas. Mas, no meio desta maravilhosa variedade, só nós, homens — não falo aqui dos anjos — nos unimos ao Criador pelo exercício da nossa liberdade: podemos prestar ou negar ao Senhor a glória que lhe corresponde como Autor de tudo o que existe», São Josemaria, Amigos de Deus, 24.
[9] Cf. Concílio Vaticano II, Const. Gaudium et Spes, 18.
[10] Cf. Ibidem, 17-18. Em particular, a doutrina sobre a consciência moral e a responsabilidade ligada à liberdade humana, no quadro da explicação da pessoa humana como imagem de Deus, foi extensamente desenvolvida por João Paulo II, Enc. Veritatis Splendor, 6-VIII-1993, 54-64.
[11] Cf. Concílio Vaticano II, Const. Gaudium et Spes, 19-21.
[12] Cf. Ibidem, 36.
[13] Ibidem, 19.
[14] Cf. Ibidem, 21; Paulo VI, Enc. Evangelii Nuntiandi, 8-XII-1975, 21; João Paulo II, Enc. Veritatis Splendor, 93; João Paulo II, Carta Ap. Novo Millennio Ineunte, 6-I-2001, cap. III e IV.
[15] Cf. João Paulo II, Ex. Ap. Christifideles laici, 30-XII-1988, 34; Enc. Fides et Ratio, 5.
[16] Cf. Concílio Vaticano II, Decl. Nostra Aetate, 2.
[17] Cf. Concílio Vaticano II, Const. Lumen Gentium, 16.
[18] Cf. João Paulo II, Enc. Redemptoris missio, 7-XII-1990, 5; Congregação para a Doutrina da Fé, Decl. Dominus Iesus, 6-VIII-2000, 5;13-15.
[19] Cf. João Paulo II, Enc. Fides et Ratio, 34; Bento XVI, Enc. Spe Salvi, 30-XI-2007, 5.

Fonte: OPUS DEI

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013


A  FÉ  E  OS  OBSTÁCULOS  À  FÉ


A fé é a adesão do homem a Deus que lhe fala, revelando o mistério de sua vida íntima e o seu plano de salvação. Visto que se trata de verdades transcendentes, a fé é adesão no claro-escuro ou na penumbra. Por isto é um ato da inteligência que não tem a evidência do que professa, mas é movida pela vontade para dizer o seu "Sim". A vontade, porém, só pode impelir ao "Sim" se está isenta de paixões e afetos desregrados, pois a fé exige conversão. Vê-se, pois, que o ato de fé mexe com toda a personalidade do ser humano. Daí encontrar obstáculos diversos de ordem intelectual e de ordem moral. As crises de fé têm motivos complexos, muitas vezes ligados a problemas de ordem ética.

Pode-se dizer que o ato de fé é o ato mais nobre que alguém possa realizar, pois procede da inteligência aplicada ao mais nobre objeto, que é o Ser infinitamente perfeito ou Deus. As crises de fé por que passam muitas pessoas em nossos dias, têm motivos complexos e variados. No intuito de colaborar na solução dessas crises, vamos, a seguir, propor o que é propriamente a fé, e quais os obstáculos que a podem pôr em xeque.

1. O que é a fé?

O Concílio do Vaticano I (1870), tendo em vista concepções errôneas do século XIX, definiu a fé nos seguintes termos, que bem resumem o ensino tradicional da Igreja:

"A fé... é uma virtude sobrenatural pela qual, prevenidos e auxiliados pela graça de Deus, cremos como verdadeiro o conteúdo da Revelação, não em virtude da verdade intrínseca (evidência) das proposições reveladas, vistas à luz natural da razão, mas por causa da autoridade de Deus, que não se pode enganar nem pode enganar a nós" (Denzinger-Schöenmetzer; Enquirídio de Definições... 3008 [1789]).

O Concílio do Vaticano II, em 1965, retomou o conceito de fé, encarando outros aspectos:

"Ao Deus que revela, deve-se a obediência da fé, pela qual o homem livremente se entrega todo a Deus, prestando ao Deus revelador um obséquio pleno do intelecto e da vontade e dando voluntário assentimento à revelação feita por Ele" (Constituição Dei Verbum nº 5).

Estas duas definições convergem entre si, propondo as seguintes conclusões:

1) A fé não é um sentimento cego, nem meramente emotivo. Afaste-se a afirmação: "Todos temos que crer em alguma coisa, qualquer que seja". Essa "alguma coisa" não pode ser algo de vago, indefinido, sentimental, mas é algo que o intelecto reconhece "inteligentemente".

2) A fé não é mero ato de confiança, mero ato do coração e dos afetos, que se entregam a Deus como Salvador. Isto quer dizer: a fé tem caráter também intelectual ou inteligente (não meramente cerebrino ou frio, sem dúvida). É o ato mais nobre do homem, pois aplica a faculdade mais digna do ser humano (a inteligência) ao objeto mais elevado e perfeito, que é Deus. Afaste-se, pois, todo anti-intelectualismo ao se tratar da fé.

3) A fé é um ato da inteligência..., mas não só da inteligência. É uma atitude da inteligência movida pela vontade. Com efeito; o objeto proposto pela fé não é evidente por si mesmo (não é claro à razão, por exemplo, que Jesus é Deus e Homem). A inteligência humana tem o direito (às vezes... tem mesmo o dever) de estudar cada uma das proposições da fé: Jesus é Deus e Homem, Deus é Uno e Trino, Jesus está presente na Eucaristia... Após estudar a documentação respectiva (ou o porquê crer), a inteligência conclui: não são proposições evidentes como "dois e dois são quatro, o todo é maior do que qualquer de suas partes", mas também não são absurdas e contraditórias como "o círculo é quadrado, o triângulo é redondo...". Se fossem evidentes por si mesmas, a inteligência estaria coagida a dizer-lhes "Sim", como é coagida a dizer "Sim" a "dois mais dois são quatro". Por conseguinte, feito o exame das proposições da fé, a inteligência diz ao estudioso: "Se queres, podes crer" e passa para a vontade a decisão final - o assentimento ou a recusa.

4) Vê-se, pois, que a fé não é movida pela evidência intrínseca das proposições reveladas por Deus, mas ela tem motivos de credibilidade. Ela pede credenciais; baseia-se na evidência extrínseca, ou seja, na autoridade e credibilidade de quem ou do que transmite a mensagem. Antes de crer, a inteligência vê que deve crer; existem preâmbulos necessários à fé. Diz S. Tomás de Aquino: "O homem não acreditaria se não visse que deve crer" (Suma Teológica II/II q.1, art. 4, ad. 2).

5) Por conseguinte, a fé é um ato livre; é um obséquio voluntário prestado pelo fiel à autoridade de Deus que se revela. É, portanto um ato mais nobre do que os atos cujo objeto é tão evidente que eles se tornam obrigatórios. O ato de fé supõe reflexão e decisão consciente e responsável.
6) Acontece, porém, que a vontade humana pode ser influenciada, consciente ou inconscientemente, pelas paixões e os afetos do indivíduo. Alguém pode ter posições preconcebidas contra a fé, pois esta exige mudança de vida que o homem desregrado pode não querer realizar; quando a verdade não lhe convém, a pessoa tenta "provar" que ela não é verdade e que a evidência não aparece. Escreveu o filósofo Thomas Hobbes (+1678): "Se nisto tivessem os homens interesse, duvidariam da geometria de Euclides" (Sistema da Natureza 2, 4).

Em muitos casos, a falta de fé não se deve a dificuldades intelectuais, mas aos sacrifícios que a fé impõe. O hedonismo, a procura do prazer e a fuga das renúncias dificultam enormemente o acesso às verdades da fé. Já Sêneca (+ 63 d.C.) dizia: "Muitas vezes ocorrem-me pessoas que julgam ser impossível fazer o que elas não podem fazer... Tais pessoas, na verdade, podem fazê-lo, mas não o querem... Não se diga: 'Não ousamos fazê-lo por ser coisa difícil', mas 'é coisa difícil porque não o ousamos fazer'" (A Lucílio, Epístola 104).
7) Vê-se assim que a fé solicita a pessoa humana e todas as suas faculdades. Ter fé implica a mobilização geral das virtualidades do indivíduo; "pela fé o homem se entrega todo a Deus", diz a Constituição Dei Verbum atrás citada.
Examinemos agora a fundamentação neotestamentária desta noção de fé.

2. Que diz o Novo Testamento?

No Evangelho frequentemente a palavra crer (pisteuein, em grego) indica, nos ouvintes, uma atitude de resposta a uma verdade proposta ou a um ensinamento:

Jo 7,46: "Se vos digo a verdade, por que não me credes?"

Jo 5,46 s.: "Se crêsseis em Moisés, haveríeis de crer em mim, porque foi a meu respeito que ele escreveu. Mas, se não credes em seus escritos, como crereis em minhas palavras?".

Jo 10,37 s.: "Se não faço as obras do meu Pai, não acrediteis em mim. Mas, se as faço, ainda que não acrediteis em mim, crede nas obras, a fim de conhecerdes e conhecerdes sempre mais que o Pai está em mim e eu no Pai".

Jo 11,26 s.: "Eu sou a ressurreição e a vida; crês nisto? - Sim, Senhor; creio que és o Cristo".

São Paulo professa a mesma concepção em Rm. 10,9: "Se com tua boca confessares que Jesus é Senhor e creres em teu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo".

O cristão crê num fato que ele considera verdadeiro, e esta fé salva:

Cl. 2,6 s.: ".. Enraizados em Cristo, sobre ele edificados e apoiados na fé, como aprendestes, e transbordando de alegria. Tomai cuidado para que ninguém vos escravize por vãs e enganosas especulações da filosofia, segundo a tradição dos homens".
A doutrina da fé transmitida pelos Apóstolos é verdadeira e distingue-se das especulações da falsa filosofia. Por conseguinte, a fé é a adesão à verdade; o que não se coaduna com ela, é crendice, é heresia ou erro.

Hb. 11,1: "A fé é a posse antecipada das coisas que esperamos; é a demonstração das coisas que não vemos".

Esta quase definição da fé põe em evidência o aspecto intelectual da fé: ela demonstra ou faz ver antecipadamente o que o cristão conhecerá plenamente na visão face-a-face da Beleza Infinita.

Tt. 1,9: "O epíscopo (= vigilante da Igreja) deve ser de tal modo fiel na exposição da palavra que seja capaz de ensinar a sã doutrina e refutar os que lhe contradizem".

Mc 16, 15s: "Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado, será salvo; quem não crer; será condenado".
Este texto põe em evidência o aspecto livre do ato de fé. Quem ouve a mensagem do Evangelho, pode aceitá-la crendo, como a pode rejeitar recusando crer.

Tais passagens bíblicas são citadas para comprovar que a fé não é um sentimento cego nem um mero ato de confiança afetiva em Deus, mas, sim, uma atitude da inteligência, que, movida pela vontade livre, diz "Sim" à Palavra de Deus que se revela.

À guisa de complemento, pode-se acrescentar que ter fé não é algo raro ou extraordinário para o ser humano. Na vida cotidiana, todo homem, mesmo o ateu, exercita a fé,... a fé na autoridade de quem lhe fala, e, na base dessa fé, pauta o seu comportamento. É o que se dá, por exemplo, com quem lê ou ouve o noticiário dos jornais; notícias relativas à economia nacional e internacional lhe são transmitidas em caráter decisivo; se a fonte de informações é segura, a pessoa não se preocupa com averiguações empíricas, mas crê e tira suas conclusões concretas. Todo homem crê também nos historiadores que com seriedade lhe relatam o passado. Crê também que N.N. é seu pai ou sua mãe, sem procurar provas fisiológicas ou médicas para crê-lo. Crê no médico que lhe receita um remédio ou um tratamento...

O papa João Paulo II lembra estes aspectos na sua encíclica "Fé e razão":
«Na vida de uma pessoa, são muito mais numerosas as verdades simplesmente acreditadas do que aquelas adquiridas por verificação pessoal. Na realidade, quem seria capaz de avaliar criticamente os inumeráveis resultados das ciências, sobre os quais se fundamenta a vida moderna? Quem poderia, por conta própria, controlar o fluxo de informações recebidas diariamente de todas as partes do mundo e que, por princípio, são aceitas como verdadeiras? Enfim, quem poderia percorrer novamente todos os caminhos de experiência e pensamento pelos quais se foram acumulando os tesouros da sabedoria e religiosidade da humanidade? Portanto, o homem, ser que busca a verdade, é também, aquele que vive de crenças» (nº 32).

Examinemos agora de mais perto os obstáculos intelectuais e os obstáculos morais que dificultam ou mesmo impedem o ato de fé.

3. Obstáculos intelectuais

Assinalam-se dois principais obstáculos: a ignorância religiosa e os vícios de método.

3.1. Ignorância religiosa

O primeiro dos obstáculos intelectuais é a ignorância ou também a errônea transmissão das proposições da fé. Com efeito; não é raro alguém negar as verdades da fé, porque não as conhece adequadamente ou só conhece caricaturas da verdade. Tal é o caso, por exemplo, de quem rejeita a fé porque julga que ela ensina a criação do mundo em seis dias de 24 horas, a origem do homem a partir do barro, a da mulher a partir da costela de Adão... Já Tertuliano (+ 220 aproximadamente), apologista cristão, escrevia aos pagãos: "A religião cristã vos pede uma só coisa: que não a condeneis sem a conhecer".

Pascal (+ 1662), filósofo e matemático francês, censurava os que superficialmente abordam as verdades da fé:
"Julgam ter feito grandes esforços para se instruir porque empregaram poucas horas na leitura de algum livro da Escritura ou interrogaram algum eclesiástico sobre as dificuldades da fé. Depois disto ufanam-se de haver procurado em vão nos livros e nos homens" (Pensées, sect. III, nº 194, Brunschvig II, p. 102).

O padre Leonel Franca apresenta alguns exemplos da ignorância religiosa que leva a renegar as verdades da fé:
"Infelizmente é com lacuna de informações e descuidos críticos que se fundamentam conclusões frágeis e apressadas de certos manuais de história comparada das religiões. Esbatem-se na penumbra diferenças essenciais, põem-se em relevo semelhanças de superfície, forçam-se analogias até a identidade, interpretam-se ritos e cerimônias pela materialidade externa dos atos e não pelo profundo significado íntimo da ideia que as anima e especifica; explicam-se todas as concordâncias por simples empréstimo ou influências históricas. As conclusões são inesperadas e radicais" (A psicologia da fé, p. 77).

O autor se refere aos estudiosos que, por exemplo, afirmam que o dogma da SSma. Trindade não é senão o eco cristão de tríades de deuses do Egito e da Índia...; a maternidade virginal de Maria seria o mito da Virgem-Mãe transposto para o Credo cristão; o batismo cristão não seria mais do que uma das tantas abluções rituais da antiguidade; a ceia eucarística uma cópia das refeições sagradas do paganismo. Somente uma análise superficial dos fatos leva a dizer tais coisas. Na verdade, há manifestações e cerimônias religiosas que são espontâneas à natureza humana como tal e, por isto, encontradas em várias correntes religiosas com grande semelhança entre si. Diferem, porém, umas das outras pelo espírito ou a visão doutrinária que inspira cada uma dessas práticas. Em consequência não se pode falar de empréstimo ou dependência do cristianismo em relação a outras correntes religiosas.

Além de quanto foi dito atrás, deve-se notar que, em nossos dias principalmente, a fé requer estudo continuado. Com o passar dos anos, as verdades reveladas podem ser penetradas com mais maturidade. O cristão as contempla numa síntese harmoniosa, que depende da aplicação da mente e da vivência concreta. Por outro lado, a multiplicação de correntes religiosas, sociedades "místicas", escolas de orientalismo, exige do fiel católico uma constante atualização de seus conhecimentos religiosos, a fim de que não se deixe levar por objeções mal construídas e sofismas. Especialmente importante, no caso, é o estudo da Escritura Sagrada e da História da Igreja.

3.2. Vícios de método

Há quem se faça de pesquisador autodidata, às vezes preconceituoso. Tal pessoa dificilmente atingirá a beleza das verdades da fé.
Santo Agostinho, ao descrever seu itinerário espiritual, refere-se a uma época em que ele queria enquadrar Deus dentro de imagens quantitativas. Este preconceito lhe dificultou o acesso à verdade:
"Queria ter na área das realidades invisíveis uma certeza igual à de que três mais sete são dez... O que não era suscetível de uma representação quantitativa, parecia-me não existir" (Confissões VI, 4; VII, 1).

Requer-se do estudioso não uma diminuição do rigor lógico, mas o que Aristóteles considerava sinal de maturidade científica: a plasticidade da inteligência, que sabe adaptar-se aos múltiplos aspectos da realidade, procurando em cada aspecto os caminhos que, decorrentes da própria natureza das coisas, levam à certeza. Trata-se de ser dócil à realidade investigada em toda a riqueza da sua complexidade.
Os vícios no método de estudo podem levar a uma falsa certeza ou a um saber falso, que é pior do que a própria ignorância. Já Platão (+ 347 a.C.) o notava:

Na obra "Leis", um dos interlocutores diz a Platão: "Parece-me que receias entrar nessas questões por causa da nossa ignorância". Responde o mestre: "Muito mais recearia tratar com pessoas que tivessem estudado tais coisas, porém mal. No caso, não é a ignorância das multidões a mais perigosa, nem a mais temível, nem o maior dos males. Ter estudado muito e muito haver aprendido, mas com métodos viciosos, é mal muito maior" (Leis X 818s).
Com outras palavras: aprender mal é pior do que não aprender. As falsas "verdades" causam maior mal do que a ignorância.

Um dos mais sérios obstáculos à apreensão da verdade é o preconceito do racionalismo. Este afirma que tudo pode ser explicado racionalmente. O que a razão não abarca, só pode ser lenda ou mito. Assim fica de antemão excluída a possibilidade de qualquer intervenção extraordinária de Deus no curso da história. No princípio da investigação científica põe-se um ato de fé,... ato de fé num preconceito estabelecido dogmaticamente. Ora a ciência deve ser imparcial; ela não pode ser cerceada por preconceitos ou por princípios estipulados a priori ou de antemão.

4. Obstáculos morais
4.1. O orgulho

O orgulho é a recusa de qualquer submissão: é a pretensão a uma independência sem limites. É claro que isto dificulta, se não impede, o acesso a Deus.
O orgulho é excitado pelas conquistas científicas e tecnológicas do homem contemporâneo, que, ao menos inconscientemente, tende a colocar Deus de lado para ocupar o lugar dele. Aliás, já no século passado Pierre Eugéne Marcelin Berthelot (+ 1907), grande químico francês, escrevia:
"Para que a ciência não se fragmente em especialidades, é mister que haja pelo menos um cérebro capaz de abraçá-la no seu conjunto. Esse cérebro creio ter sido eu; receio ser o derradeiro" (citado por Paul Painlevé, Le Temps, 20/3/1907).
Não é necessário desenvolver a temática, clara por si mesma.

4.2. A sensualidade

A sensualidade é a busca do prazer sensual pelo prazer, sem respeito à finalidade das funções sexuais. A moral filosófica não é contrária ao prazer, mas afirma que o prazer é um derivado decorrente do exercício harmonioso de determinada atividade.
A sensualidade pode escravizar o homem e obnublar a sua mente. Produz desequilíbrio no comportamento humano e assim incompatibiliza as pessoas com as verdades da fé.
Esta afirmação é evidente aos pensadores desde os tempos mais remotos. Já Pitágoras, no século VI a.C., submetia seus discípulos a longo exercício de virtudes que os preparassem ao estudo da sabedoria. A ascese era o vestíbulo da escola pitagórica.
Sêneca (+ 63 d.C.) escrevia:

"Se a virtude a que aspiramos é de tão grande valor, não é porque a isenção de vícios seja uma felicidade real, mas porque assegura à alma toda a sua liberdade e a prepara ao conhecimento das coisas celestes, tornando-a digna de conversar com Deus" (Quaestiones Naturales, Prefácio).
Aliás, o Senhor Jesus o confirma no Evangelho, dizendo: "Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus" (Mt. 5, 8).
O impuro não pode conhecer o puro. A maneira de viver condiciona a maneira de ver.

À guisa de ilustração, sejam citados ainda outros pensadores, mesmo não cristãos.

Rogério Bacon (+ 1294), o fundador da ciência experimental, escrevia: "A virtude esclarece a inteligência e facilita-lhe a compreensão não só das verdades morais, mas até mesmo a das puramente cientificas" (Opus Malus II).

Maine de Biran (+ 1824), um dos pensadores modernos mais perspicazes, observa: "É mister reconciliar o coração com as luzes, a consciência com os costumes, os deveres com os prazeres e, por aí, chegar à paz do coração, a esta paz interior, sem a qual não há felicidade possível" (Journal Intime).

Na Alemanha Johann Gottlieb Fichte (+ 1814) afirmava: "Se minha vontade é reta, se ela tende constantemente para o bem, a verdade se revelará sem dúvida à minha inteligência. Eu sei que não pertence só ao pensamento produzir a verdade" (Destination de l'homme).

A grande santa Teresa de Ávila (+ 1582) notava: "A coisa mais razoável do mundo parece-nos loucura quando não temos vontade de praticá-la" (Fundações, cap. V).[1]
5. Conclusão

Escreve o padre Leonel Franca em sua linguagem erudita: "A conquista da verdade religiosa encontra numerosos obstáculos, uns de ordem intelectual, outros de caráter moral. Na realidade viva das almas, a ação de uns e de outros ... funde-se na síntese de um todo solidário e complexo. As ignomínias do coração procuram sempre a cumplicidade da inteligência. Os extravios intelectuais raras vezes deixam de refletir-se na desordem dos costumes. Erro e vício colaboram frequentemente em afastar o homem da verdade total.
“Destas dificuldades triunfam as pessoas retas e sinceras" (A psicologia da fé. Ed. Agir, p. 195)

Após quanto acaba de ser exposto, verifica-se que a fé mexe com toda a personalidade do ser humano: intelecto (pois é a adesão à Verdade, e não um sentimento cego), vontade (pois vem a ser entrega total e livre a Deus, que fala e convida) e afetos ou paixões (pois exige ordem e equilíbrio no mundo afetivo do ser humano, que é, muitas vezes, sorrateiro e traidor). A fé, porém, assim concebida vem a ser o antegozo do encontro final com Deus, que é a Grande Resposta aos anseios humanos.
Dom Estêvão Bettencourt

[1] O padre Leonel Franca S.J. explica: «A psicologia religiosa projeta aqui a claridade de suas luzes e mostra-nos como a desorganização dos costumes e a ascensão espiritual são movimentos, de sua natureza, opostos, dos quais o primeiro tende fatalmente a paralisar o segundo. É, antes de tudo, uma questão de lógica elementar. No domínio religioso, fé e costumes acham-se, de direito, unidos por uma solidariedade indestrutível. É uma e a mesma realidade que funda em si duas ordens de relações diversas, uma para com a inteligência, outra para com a vontade. O conhecimento da vida íntima de Deus e da participação desta vida às criaturas na economia atual da Providência: eis a fé. As condições práticas de realizar esta economia e atingir a felicidade dos destinos que nos foram preparados; eis a lei. O símbolo, portanto, dogmata, e o Decálogo, mandata, são as duas expressões da mesma realidade objetiva, uma no domínio do pensamento, outra no domínio da ação; fundando lá a ordem da verdade, aqui a da moralidade; impondo à inteligência uma regra de crer e à vontade uma norma de agir. Esta conexão intima, baseada na própria natureza das coisas, cria, para quem se furta ao dever dos mandamentos, uma situação de hostilidade, manifesta ou latente, às exigências da fé. Subjugada aos sentidos, a inteligência perde a liberdade indispensável ao exame objetivo e imparcial da realidade. Os 'livres-pensadores' são os pensadores mais escravos do mundo» (A psicologia da fé - 6ª edição - Rio de Janeiro - p. 171).

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

UMA RELÍQUIA



No ano de 1910 foi publicado em Paris o chamado Catecismo Ilustrado (ou Catecismo em imagens), edição da Juventude Católica de Lisboa.

É uma obra belíssima, contendo 68 gravuras, todas elas relacionadas com a matéria tratada. Cada gravura recebe uma explicação textual que tem a capacidade de facilitar o aprendizado e a memorização.

É claro que a obra teve como base o Catecismo Romano de Trento, dele fazendo uma grande síntese.

Vale a pena conhecê-lo pela beleza e pela historicidade. 

Segue o link para acessá-lo, com possibilidade de download ou impressão:


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