quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Material de Apoio 06




TEMA 6. A Criação

(Catecismo da Igreja Católica, 279-374.)

A doutrina da Criação constitui a primeira resposta às questões fundamentais sobre a nossa origem e o nosso fim.

Introdução

A importância da verdade da criação baseia-se «no fundamento de todos os projetos divinos de salvação; [...] é o primeiro passo para a Aliança do Deus único com o seu povo; é o início da história da salvação que culmina em Cristo» (Compêndio, 51). Quer a Bíblia (Gn 1,1) quer o Credo começam com a profissão de fé em Deus Criador.

A diferença dos outros grandes mistérios da nossa fé - a Trindade e a Encarnação - a criação é «a primeira resposta às questões fundamentais do homem acerca da sua própria origem e do seu fim» (Compêndio, 51), que o espírito humano coloca e pode também, em parte, responder, como mostra a reflexão filosófica e os relatos das origens pertencentes à cultura religiosa de tantos povos (cf. Catecismo, 285), não obstante, a especificidade da noção de criação, somente se captou, de fato, com a revelação judaico-cristã.

A criação é, pois, um mistério de fé e, ao mesmo tempo, uma verdade acessível à razão natural (cf. Catecismo, 286). Esta peculiar posição entre fé e razão, faz da criação um bom ponto de partida na tarefa de evangelização e diálogo que os cristãos estão sempre - particularmente nos nossos dias [1] - chamados a realizar, como já fizera São Paulo no Areópago de Atenas (At 17,16-34).

Costuma fazer-se a distinção entre ato criador de Deus - a criação active sumpta - e realidade criada, que é efeito de tal ação divina - a criação passive sumpta [2]. Seguindo este esquema expõem-se a seguir os principais aspectos dogmáticos da criação.

1. O ato criador

1.1. «A criação é obra comum da Santíssima Trindade» (Catecismo, 292)

A Revelação apresenta a ação criadora de Deus como fruto da Sua omnipotência, da Sua sabedoria e do Seu amor. Costuma atribuir-se a criação, particularmente, ao Pai (cf. Compêndio, 52), assim como a redenção ao Filho e a santificação ao Espírito Santo. Do mesmo modo, as obras “ad extra” da Trindade - a primeira delas, a criação - são comuns a todas as Pessoas e, por isso, é lógico perguntar qual o papel específico de cada Pessoa na criação, pois «cada pessoa divina realiza a obra comum segundo a Sua propriedade pessoal» (Catecismo, 258). É este o sentido da, igualmente, tradicional apropriação dos atributos essenciais - omnipotência, sabedoria, amor - respectivamente, ao operar criador do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

No Símbolo niceno-constantinopolitano confessamos a nossa fé «num só Deus, Pai omnipotente, criador do céu e da terra»; «num só Senhor Jesus Cristo [...] por quem tudo foi feito»; e no Espírito Santo «Senhor que dá a vida» (DS 150). A fé cristã fala, portanto, não somente de uma criação ex nihilo, do nada, que indica a omnipotência de Deus Pai; mas também de uma criação feita com inteligência, com a sabedoria de Deus - o Logos por meio do qual tudo foi feito (Jo 1,3); e de uma criação ex amore (GS 19), fruto da liberdade e do amor que é o próprio Deus, o Espírito que procede do Pai e do Filho. Em consequência, as processões eternas das Pessoas estão na base do Seu operar criador [3].

Assim, como não há contradição entre a unicidade de Deus e ser três pessoas, de modo análogo não se contrapõe a unicidade do princípio criador com a diversidade dos modos de operar de cada uma das Pessoas.

«Criador do céu e da terra»

«”No princípio, Deus criou o céu e a terra”. Três coisas são afirmadas nestas primeiras palavras da Escritura: Deus eterno deu um princípio a tudo quanto existe fora d'Ele. Só Ele é criador (o verbo “criar” - em hebreu bara - tem sempre Deus por sujeito). E tudo quanto existe (expresso pela fórmula “o céu e a terra”) depende d'Aquele que lhe deu o ser» (Catecismo, 290).

Só Deus pode criar em sentido próprio [4], o que implica originar as coisas a partir do nada - ex nihilo - e não a partir de algo preexistente; para isso requer-se uma potência ativa infinita, que só a Deus corresponde (cf. Catecismo, 296-298). É congruente, portanto, apropriar a omnipotência criadora ao Pai, já que Ele é na Trindade (segundo uma clássica expressão) fons et origo, quer dizer, a Pessoa de quem procedem as outras duas, princípio sem princípio.

A fé cristã afirma que a distinção fundamental na realidade é a que se dá entre Deus e as Suas criaturas. Isto supôs uma novidade nos primeiros séculos, nos quais, polaridade entre matéria e espírito motivava visões inconciliáveis entre si (materialismo e espiritualismo, dualismo e monismo). O cristianismo quebrou estes moldes, sobretudo com a sua afirmação de que também a matéria, como o espírito, é criação do único Deus transcendente. Mais tarde, São Tomás desenvolveu uma metafísica da criação que descreve Deus como o próprio Ser subsistente - Ipsum Esse Subsistens. Como causa primeira, é absolutamente transcendente ao mundo e, ao mesmo tempo, em virtude da participação do Seu ser nas criaturas, está presente intimamente nelas, as quais dependem, em tudo, d'Aquele a que pertence a fonte do ser. Deus é superior summo meo e ao mesmo tempo, intimior intimo meo (Santo Agostinho, Confissões, 3,6,11; cf. Catecismo, 300).

«Por quem tudo foi feito»

A literatura sapiencial do Antigo Testamento apresenta o mundo como fruto da sabedoria de Deus (cf. Sb 9,9). «O mundo não é fruto duma qualquer necessidade, dum destino cego ou do acaso» (Catecismo, 295), mas tem uma inteligibilidade que a razão humana, participando na luz do Entendimento divino, pode captar, não sem esforço e num espírito de humildade e de respeito perante o Criador e a Sua obra (cf. Jb 42,3; cf. Catecismo, 299). Este desenvolvimento chega à sua expressão plena no Novo Testamento; ao identificar o Filho, Jesus Cristo, com o Logos (cf. Jo 1,1 ss), afirma que a sabedoria de Deus é uma Pessoa, o Verbo encarnado, por quem tudo foi feito (Jo 1,3). São Paulo formula esta relação do criado com Cristo, esclarecendo que todas as coisas foram criadas n'Ele, por Ele e para Ele (Col 1,16-17).

Há, pois, uma razão criadora na origem do cosmos (cf. Catecismo, 284) [5]. O cristianismo tem desde o início uma grande confiança na capacidade da razão humana para conhecer e uma enorme segurança em que jamais a razão - científica, filosófica, etc. - poderá chegar a conclusões contrárias à fé, pois ambas provêm de uma mesma origem.

Não é infrequente encontrarem-se pessoas que colocam falsas disjuntivas, como por exemplo, entre criação e evolução. Na realidade, uma adequada epistemologia não só distingue os âmbitos próprios das ciências naturais e da fé, mas, além disso, reconhece na filosofia um elemento necessário de mediação, pois as ciências, com o seu método e objeto próprios, não cobrem a totalidade do âmbito da razão humana e a fé, que se refere ao próprio mundo de que falam as ciências; necessita de categorias filosóficas [6] para se formular e entrar em diálogo com a racionalidade humana.

É, pois, lógico que desde o início, a Igreja procurasse o diálogo com a razão, uma razão consciente do seu caráter criado, pois não se deu a si própria a existência, nem dispõe, completamente, do seu futuro; uma razão aberta ao que a transcende, ou seja, à Razão originária. Paradoxalmente, uma razão fechada sobre si, que crê poder encontrar dentro de si a resposta às suas questões mais profundas, acaba por afirmar o sem- sentido da existência e por não reconhecer a inteligibilidade do real (niilismo, irracionalismo, etc.).

«Senhor que dá a vida»

«Acreditamos que ele [o mundo] procede da vontade livre de Deus, que quis fazer as criaturas participantes do Seu Ser, da Sua sabedoria e da Sua bondade: “porque Vós criastes todas as coisas e, pela vossa vontade, elas receberam a existência e foram criadas” (Ap 4,11) [...]. “O Senhor é bom para com todos e a sua misericórdia estende-se a todas as criaturas” (Sl 145, 9)» (Catecismo, 295). Como consequência, «saída da bondade divina, a criação partilha dessa bondade (“E Deus viu que isto era bom [... ] muito bom”: Gn 1,4.10.12.18.21.31). Porque a criação é querida por Deus como um dom orientado para o homem, como herança que lhe é destinada e confiada» (Catecismo, 299).

Este caráter de bondade e de dom livre permite descobrir na criação a atuação do Espírito - que «pairava sobre as águas» (Gn 1,2) - a Pessoa Dom na Trindade, Amor subsistente entre o Pai e o Filho. A Igreja confessa a sua fé na obra criadora do Espírito Santo, doador de vida e fonte de todo o bem [7].

A afirmação cristã da liberdade divina criadora permite superar as estreitezas de outras visões que, pondo uma necessidade em Deus, acabam por defender o fatalismo ou determinismo. Não há nada, nem “dentro” nem “fora” de Deus, que o obrigue a criar. Qual é, então, o fim que O move? Que pretendeu ao criar-nos?

1.2. «O mundo foi criado para a glória de Deus» (Concílio Vaticano I)

Deus criou tudo «não para aumentar a Sua glória mas para a manifestar e comunicar» (São Boaventura, Sent., 2,1,2,2,1). O Concílio Vaticano I (1870) afirma que «na sua bondade e pela sua força omnipotente, não para aumentar a sua felicidade, nem para adquirir a sua perfeição, mas para a manifestar pelos bens que concede às suas criaturas, Deus, no Seu libérrimo desígnio, criou do nada, simultaneamente, e desde o princípio do tempo uma e outra criatura - a espiritual e a corporal» (DS 3002; cf. Catecismo, 293).

«A glória de Deus está em que se realize esta manifestação e esta comunicação da sua bondade, em ordem às quais o mundo foi criado. Fazer de nós “filhos adotivos por Jesus Cristo. Assim aprouve à sua vontade, para que fosse enaltecida a glória da sua graça’ (Ef 1,5-6): “Porque a glória de Deus é o homem vivo e a vida do homem é a visão de Deus” (Santo Ireneu de Lião, Adversus haereses, 4,20,7)» (Catecismo, 294).

Longe de uma dialética de princípios contrapostos - como ocorre no dualismo de traço maniqueu e, também, no idealismo monista hegeliano - afirmar a glória de Deus como fim da criação não implica uma negação do homem, mas um pressuposto indispensável para a sua realização. O otimismo cristão mergulha as suas raízes na exaltação conjunta de Deus e do homem: «o homem é grande só se Deus é grande» [8]. Trata-se de um otimismo e de uma lógica que afirmam a absoluta prioridade do bem, mas que, nem por isso, são cegos perante a presença do mal no mundo e na história.

1.3. Conservação e providência. O mal

A criação não se reduz aos começos. «Depois da criação, Deus não abandona a criatura a si mesma. Não só lhe dá o ser e o existir, mas a cada instante a mantém no ser, lhe dá o agir e a conduz ao seu termo» (Catecismo, 301). A Sagrada Escritura compara esta atuação de Deus na história com a ação criadora (cf. Is 44,24; 45,8; 51,13). A literatura sapiencial explicita a ação de Deus que mantém na existência as suas criaturas. «E como poderia subsistir algo se não o quisésseis ou conservar-se aquilo que Vós não tivésseis chamado?» (Sb 11,25). São Paulo vai mais longe e atribui esta ação conservadora a Cristo: «Ele é antes de todas as coisas e todas as coisas subsistem por Ele» (Cl 1,17).

O Deus cristão não é um relojoeiro ou um arquiteto que, após ter realizado a sua obra, se desinteressasse dela. Estas imagens são próprias duma concepção deísta, segundo a qual Deus não se imiscui nos assuntos deste mundo. Mas isto supõe uma distorção do autêntico Deus criador, pois separam drasticamente a criação da conservação e do governo divino do mundo [9].

A noção de conservação “faz de ponte” entre a ação criadora e o governo divino do mundo (providência). Deus não só cria o mundo e o mantém na existência, mas além disso «conduz as suas criaturas para a perfeição última, à qual Ele as chamou» (Compêndio, 55). A Sagrada Escritura apresenta a soberania absoluta de Deus e testemunha constantemente o seu cuidado paterno, tanto nas coisas menores como nos grandes acontecimentos da história (cf. Catecismo, 303). Neste contexto, Jesus revela-Se como a providência “encarnada” de Deus, que atende, como Bom Pastor, as necessidades materiais e espirituais dos homens (Jo 10,11.14-15; Mt 14,13-14, etc.) e ensina-nos a abandonarmo-nos ao seu cuidado (Mt 6,31-33).

Se Deus cria, mantém e dirige tudo com bondade, donde provém o mal? «A esta questão, tão premente quanto inevitável, tão dolorosa como misteriosa, não é possível dar uma resposta rápida e satisfatória. É o conjunto da fé cristã que constitui a resposta a esta questão [...]. Não há nenhum pormenor da mensagem cristã que não seja, em parte, resposta ao problema do mal» (Catecismo, 309).

A criação não ficou acabada no princípio, mas Deus fê-la in statu viae, ou seja, dirigida a uma perfeição última ainda por alcançar. Para a realização dos Seus desígnios, Deus serve-se do concurso das criaturas e concede aos homens uma participação na sua providência, respeitando a sua liberdade mesmo que façam o mal (cf. Catecismo, 302, 307, 311). O realmente surpreendente é que Deus «na sua omnipotente providência pode tirar um bem das consequências de um mal» (Catecismo, 312). É misteriosa, mas é uma enorme verdade que «todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus» (Rm 8, 28) [10].

A experiência do mal parece manifestar uma tensão entre a omnipotência e a bondade divinas na sua atuação na história. Aquela recebe resposta, certamente misteriosa, no evento da Cruz de Cristo, que revela o “modo de ser” de Deus e é, portanto, fonte de sabedoria para o homem (sapientia crucis).

1.4. Criação e salvação

A criação é «o primeiro passo para a Aliança do Deus único com o seu povo» (Compêndio, 51). Na Bíblia a criação está aberta à atuação salvífica de Deus na história, que tem a sua plenitude no mistério pascal de Cristo e que alcançará a sua perfeição final no fim dos tempos. A criação está feita com vista ao Sábado, o sétimo dia em que o Senhor descansou, dia em que culmina a primeira criação e que se abre ao oitavo dia em que começa uma obra ainda mais maravilhosa: a Redenção, a nova criação em Cristo (2 Cor 5,7; cf. Catecismo, 345-349).

Mostra-se, assim, a continuidade e unidade do desígnio divino de criação e redenção. Entre ambas não há nenhum hiato, pois o pecado dos homens não corrompeu totalmente a obra divina, mas o vínculo. A relação entre ambas - criação e salvação - pode expressar-se dizendo que, por um lado, a criação é o primeiro acontecimento salvífico e, por outro, que a salvação redentora tem as características de uma nova criação. Esta relação ilumina importantes aspectos da fé cristã, como a ordenação da natureza à graça ou a existência de um único fim sobrenatural do homem.

2. A realidade criada

O efeito da ação criadora de Deus é a totalidade do mundo criado, “céus e terra” (Gn 1,1). Deus é «Criador de todas as coisas, das visíveis e das invisíveis, espirituais e corporais; que pela sua omnipotente virtude ao mesmo tempo, desde o princípio do tempo, criou do nada uma e outra criatura, a espiritual e a corporal, ou seja, a angélica e a mundana e depois a humana, como comum, composta de espírito e de corpo» [11].

O cristianismo supera quer o monismo (que afirma que a matéria e o espírito se confundem, que a realidade de Deus e do mundo se identificam), quer o dualismo (segundo o qual matéria e espírito são princípios originários opostos).

A ação criadora pertence à eternidade de Deus, mas o efeito de tal ação está marcado pela temporalidade. A Revelação afirma que o mundo foi criado como mundo com um início temporal [12], quer dizer, que o mundo foi criado juntamente com o tempo, o que se mostra muito congruente com a unidade do desígnio divino de se revelar na história da salvação.

2.1. O mundo espiritual: os anjos

«A existência de seres espirituais, não corporais, que a Sagrada Escritura chama habitualmente anjos, é uma verdade de fé. O testemunho da Escritura é tão claro como a unanimidade da Tradição» (Catecismo, 328). Ambos os mostram na sua dupla função de louvar a Deus e serem mensageiros do seu desígnio salvador. O Novo Testamento apresenta os anjos em relação com Cristo, criados por Ele e para Ele (Col 1,16), rodeiam a vida de Jesus desde o seu nascimento até à Ascensão, sendo os anunciadores da sua segunda vinda gloriosa (cf. Catecismo, 333).

Assim, estão também presentes desde o início da vida da Igreja, que beneficia da sua ajuda poderosa e na sua liturgia une-se a eles na adoração a Deus. A vida de cada homem é acompanhada, desde o seu nascimento, por um anjo protetor e pastor para o guiar na vida (cf. Catecismo, 334-336).

A teologia - especialmente São Tomás de Aquino, o Doutor Angélico - e o Magistério da Igreja aprofundaram na natureza destes seres puramente espirituais, dotados de inteligência e vontade, afirmando que são criaturas pessoais e imortais que excedem, em perfeição, todas as criaturas visíveis (cf. Catecismo, 330).

Os anjos foram criados num estado de prova. Alguns rebelaram-se irrevogavelmente contra Deus. Caídos no pecado, Satanás e os outros demônios - que tinham sido criados bons, mas por si próprios se fizeram maus - instigaram os nossos primeiros pais a pecar (cf. Catecismo, 391-395).

2.2. O mundo material

Deus «criou o mundo visível em toda a sua riqueza, a sua diversidade e a sua ordem. A Sagrada Escritura apresenta a obra do Criador, simbolicamente, como uma sequência de seis dias “de trabalho” divino que terminam no “repouso” do sétimo dia (Gn 1,1 -2,4)» (Catecismo, 337). «A Igreja, em diversas ocasiões, viu-se na necessidade de defender a bondade da criação, mesmo a do mundo material (cf. DS 286; 455-463; 800; 1333; 3002)» (Catecismo, 299).

«Pela própria condição da criação, todas as coisas estão dotadas de firmeza, verdade e bondade próprias e de uma ordem» (GS 36,2). A verdade e bondade do criado procedem do único Deus Criador que é, ao mesmo tempo, Trino. Assim, o mundo criado é um certo reflexo da atuação das Pessoas divinas: «em todas as criaturas se encontra uma representação da Trindade à maneira de vestígio» [13].

O cosmos tem uma beleza e uma dignidade, enquanto obra de Deus. Há solidariedade e hierarquia entre os seres, as quais hão de conduzir à atitude contemplativa de respeito para com o criado e para com as leis naturais que o regem (cf. Catecismo, 339, 340, 342, 354). Certamente, o cosmos foi criado para o homem, que recebeu de Deus o mandato de dominar a terra (cf. Gn 1,28). Tal mandato não é um convite à exploração despótica da natureza, mas à participação no poder criador de Deus: mediante o seu trabalho o homem colabora no aperfeiçoamento da criação.

O cristão partilha das justas exigências que a sensibilidade ecológica pôs em evidência nas últimas décadas, sem cair numa vaga divinização do mundo e afirmando a superioridade do homem sobre o resto dos seres como «o ponto culminante da obra da criação» (Catecismo, 343).

2.3. O homem

A pessoa humana goza de peculiar posição na obra criadora de Deus, ao participar, ao mesmo tempo, da realidade material e espiritual. A Escritura só nos diz que Deus o criou «à Sua imagem e semelhança» (Gn 1,26). Foi posto por Deus à cabeça da realidade visível e goza de uma dignidade especial, pois «de todas as criaturas visíveis, só o homem é capaz de conhecer e amar o seu Criador; é a única criatura sobre a terra que Deus quis por si mesma; só ele é chamado a partilhar, pelo conhecimento e pelo amor, a vida de Deus. Com este fim foi criado e tal é a razão fundamental da sua dignidade» (Catecismo, 356; cf. ibidem, 1701-1703).

Homem e mulher, na sua diversidade e complementaridade, queridas por Deus, gozam da mesma dignidade de pessoas (cf. Catecismo, 357, 369, 372). Em ambos, se dá a união substancial de corpo e alma, sendo esta a forma do corpo. Por ser espiritual, a alma humana é criada de modo imediato por Deus - e não “produzida” pelos pais, nem sequer é preexistente - e é imortal (cf. Catecismo, 366). Os dois pontos, espiritualidade e imortalidade, podem ser demonstrados filosoficamente. Portanto, é um reducionismo afirmar que o homem procede exclusivamente da evolução biológica (evolucionismo absoluto). Na realidade, há saltos ontológicos que não podem explicar-se apenas com a evolução. A consciência moral e a liberdade do homem, por exemplo, manifestam a sua superioridade sobre o mundo material e são a amostra da sua especial dignidade.

A verdade da criação ajuda a superar quer a negação da liberdade - determinismo - quer o extremo contrário de uma exaltação indevida da mesma: a liberdade humana é criada, não absoluta e existe na mútua dependência com a verdade e o bem. O sonho de uma liberdade como puro poder e arbitrariedade corresponde a uma imagem deformada, não só do homem mas, também, de Deus.

Mediante a sua atividade e o seu trabalho, o homem participa do poder criador de Deus [14]. Além disso, a sua inteligência e vontade são uma participação, uma chispa, da sabedoria e amor divinos. Enquanto o resto do mundo visível é um mero vestígio da Trindade, o ser humano constitui uma autêntica imagem, imago Trinitatis.

1.   Algumas consequências práticas da verdade sobre a criação

A radicalidade da ação criadora e salvadora de Deus exige do homem uma resposta que tenha esse mesmo caráter de totalidade: “amarás o Senhor teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças” (Dt 6,5; cf. Mt 22,37; Mc 12,30; Lc 10,27). É nesta correspondência que se encontra a verdadeira felicidade, o único que preenche plenamente a sua liberdade.

Ao mesmo tempo, a universalidade da ação divina tem um sentido intensivo e extensivo: Deus cria e salva todo o homem e todos os homens. Corresponder à chamada de Deus, a amá-Lo com todo o nosso ser está intrinsecamente unido a levar o Seu amor a todo o mundo [15].

O conhecimento e admiração do poder, sabedoria e amor divinos conduz o homem a uma atitude de reverência, adoração e humildade, a viver na presença de Deus sabendo-se filho seu. Ao mesmo tempo, a fé na providência leva o cristão a uma atitude de confiança filial em Deus em todas as circunstâncias: com agradecimento diante dos bens recebidos e com simples abandono frente ao que possa parecer mal, pois Deus retira dos males bens maiores.

Consciente de que tudo foi criado para a glória de Deus, o cristão procura conduzir-se em todas as suas ações procurando o fim verdadeiro que enche a sua vida de felicidade: a glória de Deus, não a própria vanglória. Esforça-se por retificar a intenção nas suas ações, de modo que possa dizer-se que o único fim da sua vida é este: Deo omnis gloria! [16]

Deus quis pôr o homem à frente da Sua criação outorgando-lhe o domínio sobre o mundo, de maneira que a aperfeiçoe com o seu trabalho. A atividade humana pode ser, portanto, considerada como uma participação na obra criadora divina.

A grandeza e beleza das criaturas suscita nas pessoas admiração e desperta nelas a questão sobre a origem e o destino do mundo e do homem, fazendo-se entrever a realidade do seu Criador. O cristão, no seu diálogo com os não crentes, pode suscitar estas questões para que as inteligências e os corações se abram à luz do Criador. Da mesma forma, no seu diálogo com os crentes das diversas religiões, o cristão encontra na verdade da criação um excelente ponto de partida, pois trata-se de uma verdade em parte partilhada e que constitui a base para a afirmação de alguns valores morais fundamentais da pessoa.

Santiago Sanz

Bibliografia básica
Catecismo da Igreja Católica, 279-374.
Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, 51-72.
DS, n. 125, 150, 800, 806, 1333, 3000-3007, 3021-3026, 4319, 4336, 4341.
Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, 10-18, 19-21, 36-39.
João Paulo II, Creo en Dios Padre. Catequesis sobre el Credo (I), Palabra, Madrid 1996, 181-218.

Leituras recomendadas
Santo Agostinho, Confissões, livro XII.
São Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I, qq. 44-46.
São Josemaria, Homilia «Amar o mundo apaixonadamente» em Temas Actuais do Cristianismo, 113-123. Joseph Ratzinger, Creación y pecado, Eunsa, Pamplona 1992.
João Paulo II, Memória e Identidade, Bertrand Editora, Lisboa 2005.

Notas
[1] Entre outras muitas intervenções, cf. Bento XVI, Discurso aos membros da Cúria romana, 22-XII-2005; Fé, Razão e Universidade (Discurso em Regensburg), 12-IX-2006; Angelus, 28-I-2007.
[2] Cf. São Tomás, De Potentia, q. 3, a. 3, co.; o Catecismo segue este mesmo esquema.
[3] Cf. São Tomás, Super Sent., lib. 1, d. 14, q. 1, a. 1, co.: «são a causa e a razão da processão das criaturas».
[4] Por isso se diz que Deus não necessita de instrumentos para criar, já que nenhum instrumento possui a potência infinita necessária para criar. Daí também que, quando se fala, por exemplo, do homem como criador ou inclusive como capaz de participar no poder criador de Deus, o emprego do adjetivo “criador” não é analógico mas metafórico.
[5] Este ponto aparece com frequência nos ensinamentos de Bento XVI, por exemplo, Homilia em Regensburg, 12-IX-2006; Discurso em Verona, 19-X-2006; Encontro com o clero da diocese de Roma, 22-II-2007; etc.
[6] Tanto o racionalismo cientificista como o fideísmo acientífico necessitam de uma correção da filosofia. Além disso, há de evitar-se também a falsa apologética de quem vê forçadas concordâncias, procurando nos dados que a ciência traz uma verificação empírica ou uma demonstração das verdades de fé, quando, na realidade, como dissemos, se trata de dados que pertencem a métodos e disciplinas distintas.
[7] Cf. João Paulo II, Carta Encíclica Dominum et Vivificantem, 18-V-1986, 10.
[8] Bento XVI, Homilia, 15-VIII-2005.
[9] O deísmo implica um erro na noção metafísica de criação, pois esta, enquanto doação de ser, leva consigo uma dependência ontológica por parte da criatura, que não é separável da sua continuação no tempo. Ambas constituem um mesmo ato, mesmo quando possamos distingui-las conceptualmente: «a conservação das coisas por Deus não se dá por alguma ação nova, mas pela continuação da ação que dá o ser, que é certamente uma ação sem movimento e sem tempo» (São Tomás, Summa Theologiae, I, q. 104, a. 1, ad 3).
[10] Em continuidade com a experiência de tantos santos da história da Igreja, esta expressão paulina encontrava-se frequentemente nos lábios de São Josemaria, que vivia e animava assim a viver numa gozosa aceitação da vontade divina (cf. São Josemaria, Sulco, 127; Via Sacra, IX, 4; Amigos de Deus, 119). Por outro lado, o último livro de João Paulo II, Memória e Identidade, constitui uma profunda reflexão sobre a atuação da providência divina na história dos homens, segundo aquela outra asserção de São Paulo: «Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem» (Rm 12, 21).
[11] Concílio Lateranense IV (1215), DS 800.
[12] Assim o ensina o Concílio Lateranense IV e, referindo-se a ele, o Concílio Vaticano I (cf. respectivamente DS 800 y 3002). Trata-se de uma verdade revelada, que a razão não pode demonstrar, como ensinou São Tomás na famosa disputa medieval sobre a eternidade do mundo: cf. Contra Gentiles, lib. 2, cap. 31-38; e o seu opúsculo filosófico De Aeternitate Mundi.
[13] São Tomás, Summa Theologiae, I, q. 45, a. 7, co.; cf. Catecismo, 237.
[14] Cf. São Josemaria, Amigos de Deus, 57.
[15] Que o apostolado é superabundância da vida interior (cf. São Josemaria, Caminho, 961), manifesta-se como a correlação da dinâmica ad intra - ad extra do atuar divino, quer dizer, da intensidade do ser, da sabedoria e do amor trinitário que transborda para as suas criaturas.
 [16] Cf. São Josemaria, Caminho, 780; Sulco, 647; Forja, 611, 639, 1051.
Material de Apoio 05



TEMA 5. A Santíssima Trindade

(Catecismo da Igreja Católica, 232-267.)

É o mistério central da fé e da vida cristã. Os cristãos são batizados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

1.   A revelação de Deus uno e trino

«O mistério central da fé e da vida cristã é o mistério da Santíssima Trindade. Os cristãos são batizados no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo» (Compêndio, 44). Toda a vida de Jesus é revelação do Deus Uno e Trino: na anunciação, no nascimento, no episódio da Sua perda e encontro no Templo quando tinha doze anos e na Sua morte e ressurreição, Jesus revela-Se como Filho de Deus de uma forma nova relativamente à filiação conhecida por Israel. Além disso, no momento do Seu batismo, ao iniciar a Sua vida pública, o próprio Pai testemunha ao mundo que Cristo é o Filho Amado (cf. Mt 3, 13-17 e par.) descendo sobre Ele o Espírito em forma de pomba. A esta primeira revelação explícita da Trindade corresponde a manifestação paralela na Transfiguração, que introduz o mistério Pascal (cf. Mt 17, 1-5 e par.). 

Finalmente, ao despedir-Se dos Seus discípulos, Jesus envia-os a batizar em nome das três Pessoas divinas, para que seja comunicada a todo o mundo a vida eterna do Pai, do Filho e do Espírito Santo (cf. Mt 28, 19).

No Antigo Testamento, Deus tinha revelado a Sua unicidade e o Seu amor para com o povo eleito: Yahwé era como um Pai. Mas, depois de ter falado muitas vezes pelos profetas, Deus falou por meio de Seu Filho (cf. Hb 1, 1-2), revelando que Yahwé não só é como um Pai, mas que é Pai (cf. Compêndio, 46). Jesus dirige-se a Ele na Sua oração com o termo aramaico Abba, usado pelas crianças israelitas para se dirigirem ao seu próprio pai (cf. Mc 14, 36) e distingue sempre a Sua filiação da dos discípulos. Isto é tão chocante, que se pode dizer que a verdadeira razão da crucifixão é justamente o fato de Se chamar a si mesmo Filho de Deus em sentido único. Trata-se de uma revelação definitiva e imediata [1], porque Deus se revela com a Sua Palavra: não podemos esperar outra revelação, enquanto Cristo é Deus (cf., p. ex., Jo 20, 17) que se nos dá, enxertando- nos na vida que emana do regaço de Seu Pai.

Em Cristo, Deus abre e entrega a Sua intimidade, que de per si seria inacessível ao homem apenas por meio das suas forças [2]. Esta mesma revelação é um ato de amor, porque o Deus pessoal do Antigo Testamento abre livremente o Seu coração e o Unigênito do Pai sai ao nosso encontro, para Se fazer uma só coisa conosco e levar-nos de regresso ao Pai (cf. Jo 1, 18). Trata-se de algo que a filosofia não podia adivinhar, porque radicalmente apenas pode ser conhecido mediante a fé.

2.   Deus na Sua vida íntima

Deus não só possui uma vida íntima, mas Deus é - identifica-se com - a Sua vida íntima, uma vida caracterizada por eternas relações vitais de conhecimento e de amor, que nos levam a expressar o mistério da divindade em termos de processões.

De fato, os nomes revelados das três Pessoas divinas exigem que se pense em Deus como o proceder eterno do Filho do Pai e na mútua relação - também eterna - do Amor que «procede do Pai» (Jo 15, 26) e «toma do Filho» (Jo 16, 14), que é o Espírito Santo. A Revelação fala-nos, assim, de duas processões em Deus: a geração do Verbo (Cf. Jo 17. 6) e a processão do Espírito Santo. Com a característica peculiar de que ambas são relações imanentes, porque estão em Deus: mais ainda, são o próprio Deus, enquanto Deus é Pessoal; quando falamos de processão, pensamos habitualmente em algo que sai de outro e implica mudança e movimento. Visto que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus Uno e Trino (cf. Gn 1, 26-27), a melhor analogia com as processões divinas podemos encontrá-la no espírito humano, onde o conhecimento que temos de nós próprios não sai para o exterior: o conceito que fazemos de nós é distinto de nós mesmos, mas não está fora de nós. O mesmo se pode dizer do amor que temos para conosco. De forma parecida, em Deus o Filho procede do Pai e é Imagem Sua, da mesma forma como o conceito é imagem da realidade conhecida. Só que esta Imagem em Deus é tão perfeita que é Deus mesmo, com toda a Sua infinitude, a Sua eternidade, a Sua omnipotência: o Filho é uma só coisa com o Pai, o próprio Algo, essa é a única e indivisa natureza divina, embora seja outro Alguém. O Símbolo de Niceia-Constantinopla exprime-o com a fórmula «Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro». O fato é que o Pai gera o Filho dando-Se a Ele, entregando-Lhe a Sua substância e a Sua natureza, não em parte, como acontece na geração humana, mas perfeita e infinitamente.

O mesmo se pode dizer do Espírito Santo, que procede como o Amor do Pai e do Filho. Procede de ambos, porque é o Dom eterno e incriado que o Pai entrega ao Filho gerando-O e que o Filho devolve ao Pai como resposta ao Seu Amor. Este Dom é Dom de si, porque o Pai gera o Filho comunicando-Lhe total e perfeitamente o Seu próprio Ser mediante o Seu Espírito. A terceira Pessoa é, portanto, o Amor mútuo entre o Pai e o Filho [3]. O nome técnico desta segunda processão é espiração. Seguindo a analogia do conhecimento e do amor, pode dizer-se que o Espírito procede como a vontade que se move para o Bem conhecido.

Estas duas processões chamam-se imanentes e diferenciam-se radicalmente da criação, que é transeunte, no sentido de que é algo que Deus faz para fora de Si. Tratando-se de processões dão conta da distinção em Deus, enquanto que ao serem imanentes dão razão da unidade. Por isso, o mistério do Deus Uno e Trino não pode ser reduzido a uma unidade sem distinções, como se as três Pessoas fossem apenas três máscaras; ou a três seres sem unidade perfeita, como se se tratasse de três deuses distintos, embora juntos.

As duas processões são o fundamento das diversas relações que em Deus se identificam com as Pessoas divinas: o ser Pai, o ser Filho e o ser espirado por Eles. De fato, como não é possível ser pai e ser filho da mesma pessoa, no mesmo sentido assim não é possível ser ao mesmo tempo a Pessoa que procede pela espiração e as duas Pessoas das quais procede. Convém esclarecer que no mundo criado as relações são acidentes, no sentido de que as suas relações não se identificam com o seu ser, embora o caracterizem no que é mais profundo como no caso da filiação. Em Deus, como nas processões é doada toda a substância divina, as relações são eternas e identificam-se com a própria substância.

Estas três relações eternas não só caracterizam, mas identificam-se com as três Pessoas divinas, visto que ao Pai pensar quer dizer pensar no Filho; e pensar no Espírito Santo quer dizer pensar naqueles a respeito dos quais Ele é Espírito. Assim as Pessoas divinas são três Alguém, mas um único Deus. Não como se dá entre três homens, que participam da mesma natureza humana sem a esgotar. As três Pessoas são cada uma toda a Divindade, identificando-se com a única Natureza de Deus [4]: as Pessoas são Uma na Outra. Por isso, Jesus diz a Filipe que quem o viu a Ele viu o Pai (cf. Jo 14, 6), enquanto Ele e o Pai são uma só coisa (cf. Jo 10, 30 e 17, 21). Esta dinâmica, que tecnicamente se chama pericorese ou circumincesio - dois termos que fazem referência a um movimento dinâmico em que um se intercambia com o outro como numa dança em círculo - ajuda a apercebermo-nos de que o mistério do Deus Uno e Trino é o mistério do Amor: «Ele próprio é eternamente permuta de amor: Pai, Filho e Espírito Santo, e destinou-nos a tomar parte nessa comunhão» (Catecismo, 221).

3.   A nossa vida em Deus

Sendo Deus eterna comunicação de Amor, é compreensível que esse Amor transborde para fora d'Ele na Sua atuação. Toda a atuação de Deus na história é obra conjunta das três Pessoas, dado que se distinguem apenas no interior de Deus. Não obstante, cada uma imprime nas ações divinas “ad extra” a sua característica pessoal [5]. Com uma imagem, poder-se-ia dizer que a ação divina é sempre única, como o dom que nós poderíamos receber da parte de uma família amiga, que é fruto de um só ato; mas, para quem conhece as pessoas que formam essa família, é possível reconhecer a mão ou a intervenção de cada uma, pela marca pessoal deixada por elas na prenda única.

Este reconhecimento é possível, porque conhecemos as Pessoas divinas na Sua distinção pessoal mediante as missões, quando Deus Pai enviou juntamente o Filho e o Espírito Santo na história (cf. Jo 3, 16-17 e 14, 26), para que se fizessem presentes entre os homens: «São sobretudo as missões divinas da Encarnação do Filho e do dom do Espírito Santo que manifestam as propriedades das pessoas divinas» (Catecismo, 258). Eles são como que as duas mãos do Pai [6] que abraçam os homens de todos os tempos, para os levar ao seio do Pai. Se Deus está presente em todos os seres enquanto princípio do que existe, com as missões do Filho e do Espírito fazem-se presentes de uma forma nova [7]. A própria Cruz de Cristo manifesta ao homem de todos os tempos o eterno Dom que Deus faz de Si mesmo, revelando na Sua morte a íntima dinâmica do Amor que une as três Pessoas.

Isto significa que o sentido último da realidade, o que todo o homem deseja, o que foi procurado pelos filósofos e pelas religiões de todos os tempos é o mistério do Pai que eternamente gera o Filho no Amor que é o Espírito Santo.

Assim, na Trindade encontra-se o modelo original da família humana [8] e a Sua vida íntima é a aspiração verdadeira de todo o amor humano. Deus quer que todos os homens sejam uma só família, ou seja, uma só coisa com Ele próprio, sendo filhos no Filho. Cada pessoa foi criada à imagem e semelhança da Trindade (cf. Gn 1, 27) e está feita para viver em comunhão com os outros homens e, sobretudo, com o Pai Celestial. Aqui se encontra o fundamento último do valor da vida de cada pessoa humana, independentemente das suas capacidades ou das suas riquezas.

Mas o acesso ao Pai só se pode encontrar em Cristo, Caminho, Verdade e Vida (cf. Jo 14, 6): mediante a graça, os homens podem chegar a ser um só Corpo místico na comunhão da Igreja. Através da contemplação da vida de Cristo e através dos sacramentos, temos acesso à própria vida íntima de Deus. Pelo Batismo somos enxertados na dinâmica de Amor da Família das três Pessoas divinas. Por isso, na vida cristã, trata-se de descobrir que a partir da existência corrente, das múltiplas relações que estabelecemos e da nossa vida familiar, que teve o seu modelo perfeito na Sagrada Família de Nazaré podemos chegar a Deus: «Intima com as três Pessoas: Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo. E para chegares à Santíssima Trindade, passa por Maria» [9]. Deste modo, pode descobrir-se o sentido da história como caminho da trindade à Trindade, aprendendo da “trindade da terra” - Jesus, Maria e José - a levantar o olhar para a Trindade do Céu.

Giulio Maspero

Bibliografia básica
Catecismo da Igreja Católica, 232-267.
Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, 44-49.

Leituras recomendadas
São Josemaria, Homilia «Humildade», em Amigos de Deus, 104-109.
J. Ratzinger, El Dios de los cristianos. Meditaciones, Ed. Sígueme, Salamanca 2005.

Notas
[1] Cf. São Tomás de Aquino, In Epist. Ad Gal., c. 1, lect. 2.
[2] «Deus deixou alguns traços do seu ser trinitário na criação e no Antigo Testamento, mas a intimidade do seu Ser como Trindade Santa constitui um mistério inacessível à razão humana sozinha e mesmo à fé de Israel, antes da Encarnação do Filho de Deus e do envio do Espírito Santo. Tal mistério foi revelado por Jesus Cristo e é a fonte de todos os outros mistérios» (Compêndio, 45).
[3] O Espírito Santo «é a terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Ele é Deus, uno e igual ao Pai e ao Filho; Ele “procede do Pai” (Jo 15, 26), o qual, princípio sem princípio, é origem de toda a vida trinitária. E procede também do Filho (Filioque), pelo dom eterno que o Pai faz de Si ao Filho. Enviado pelo Pai e pelo Filho encarnado, o Espírito Santo conduz a Igreja “ao conhecimento da verdade total” (Jo 16, 13)» (Compêndio, 47).
[4] «A Igreja exprime a sua fé trinitária confessando um só Deus em três Pessoas: Pai e Filho e Espírito Santo. As três Pessoas divinas são um só Deus, porque cada uma delas é idêntica à plenitude da única e indivisível natureza divina. Elas são realmente distintas entre si, pelas relações que as referenciam umas às outras: o Pai gera o Filho, o Filho é gerado pelo Pai, o Espírito Santo procede do Pai e do Filho» (Compêndio, 48).
[5] «Inseparáveis na sua única substância, as Pessoas divinas são também inseparáveis no seu operar: a Trindade tem uma só mesma operação. Mas no único agir divino, cada Pessoa está presente segundo o modo que lhe é próprio na Trindade» (Compêndio, 49).
[6] Cf. Santo Ireneu, Adversus Haereses, IV, 20, 1.
[7] Cf. São Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I, q. 43, a. 1, c. e a. 2, ad. 3.
[8] «O “Nós” divino constitui o modelo eterno do “nós” humano; antes de tudo, daquele “nós” que está formado pelo homem e a mulher, criados à imagem e semelhança divina» (João Paulo II, Carta às Famílias, 2-II-1994, 6).
[9] São Josemaria, Forja, 543.
Material de Apoio 04



TEMA 4. A natureza de Deus e a Sua atuação

(Catecismo da Igreja Católica, 199-231; 268-274.)

Diante da Palavra de Deus que se revela só pode haver lugar à adoração e ao agradecimento; o homem cai de joelhos diante de um Deus que sendo transcendente é meu íntimo.

1. Quem é Deus?

Ao longo da história, colocou-se em todas as culturas esta pergunta; tanto assim é que os primeiros sinais de civilização se encontram geralmente no âmbito religioso e do culto. Crer em Deus é o mais importante para o homem de todos os tempos [1]. A diferença essencial é em que Deus se crê. De fato, nalgumas religiões pagãs o homem adorava as forças da natureza enquanto manifestações concretas do sagrado e contava com uma pluralidade de deuses ordenada hierarquicamente. Na antiga Grécia, por exemplo, também a divindade suprema entre um panteão de deuses, era regida, por sua vez, por uma necessidade absoluta, que abarcava o mundo e os próprios deuses [2]. Para muitos estudiosos da história das religiões, em muitos povos se deu uma progressiva redução a partir de uma “revelação primigênia” do Deus único; mas, em todo o caso, inclusivamente nos cultos mais degradados podem encontrar-se luzes ou indícios nos seus costumes da religiosidade verdadeira: a adoração, o sacrifício, o sacerdócio, a oferta, a oração, a ação de graças, etc.

A razão, tanto na Grécia, como noutros lugares, procurou purificar a religião, mostrando que a divindade suprema tinha que se identificar com o Bem, a Beleza e o próprio Ser, enquanto fonte de tudo o que é bom, de todo o belo e de tudo o que existe. Mas, isto sugere outros problemas, concretamente o afastamento de Deus por parte do fiel, pois, desse modo, a divindade suprema ficava isolada numa perfeita autarquia, já que a própria possibilidade de estabelecer relações com a divindade era vista como um sinal de fraqueza. Além disso, também não via solucionada a presença do mal, que aparece de algum modo como necessária, pois o princípio supremo está unido por uma cadeia de seres intermédios sem solução de continuidade com o mundo.

A revelação judaico-cristã alterou radicalmente este quadro: Deus é apresentado na Escritura como criador de tudo o que existe e origem de toda a força natural. A existência divina precede absolutamente a existência do mundo, que é radicalmente dependente de Deus. Está aqui contida a ideia de transcendência: entre Deus e o mundo a distância é infinita e não existe uma conexão necessária entre eles. O homem e toda a criação poderiam não ser, e no que são dependem sempre de outro; enquanto que Deus é, e é por Si mesmo. Esta distância infinita, esta absoluta pequenez do homem diante de Deus mostra que tudo o que existe é querido por Deus com a Sua vontade e a Sua liberdade: tudo o que existe é bom e fruto do amor (cf. Gn 1). O poder de Deus não é limitado, nem no espaço, nem no tempo e, por isso, a Sua ação criadora é dom absoluto: é amor. O Seu poder é tão grande que quer manter a Sua relação com as criaturas; e inclusive salvá-las se, por causa da sua liberdade, estas se afastaram do Criador. Portanto, a origem do mal há que situá-lo na relação com o eventual uso equivocado da liberdade por parte do homem - coisa que de fato ocorreu, como narra o Gênesis (Gn 3) e não como algo intrínseco à matéria.

Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que, em abono do que se acaba de assinalar, Deus é pessoa que atua com liberdade e amor. As religiões e a filosofia interrogavam-se sobre o que é Deus; pelo contrário, pela Revelação, o homem é impulsionado a perguntar-se quem é Deus (cf. Compêndio, 37); um Deus que sai ao seu encontro e procura o homem para lhe falar como a um amigo (cf. Ex 33, 11). Tanto é assim que Deus revela a Moisés o Seu nome, «Eu sou aquele que sou» (Ex 3, 14), como prova da sua fidelidade à aliança e de que o acompanhará no deserto, símbolo das tentações da vida. É um nome misterioso [3] que, em todo o caso, nos dá a conhecer as riquezas do seu mistério inefável: só Ele é, desde sempre e para sempre, Aquele que transcende o mundo e a história, mas que também se preocupa com o mundo e conduz a história. Foi Ele que fez o céu e a terra, e os conserva. Ele é o Deus fiel e providente, sempre próximo do Seu povo para o salvar. Ele é o Santo por excelência, “rico em misericórdia” (Ef 2, 4), sempre pronto a perdoar. É o Ser espiritual, transcendente, omnipotente, eterno, pessoal, perfeito. É verdade e amor (cf. Compêndio, 40).

Assim sendo, a Revelação apresenta-se como uma absoluta novidade, um dom que o homem recebe do alto e que deve aceitar com reconhecimento agradecido e religioso obséquio. Portanto, a Revelação não pode ser reduzida a meras expectativas humanas, vai muito mais além: diante da Palavra de Deus que se revela só pode ter lugar a adoração e o agradecimento, o homem cai de joelhos diante do assombro de um Deus que, sendo transcendente, se faz interior intimo meo [4], mais próximo de mim do que eu próprio e que procura o homem em todas as situações da sua existência: «O criador do céu e da terra, o Deus único que é fonte de todo o ser, este único Logos criador, esta Razão criadora, ama pessoalmente o homem, mais ainda, ama-o apaixonadamente e quer, por sua vez, ser amado. Por isso, esta Razão criadora, que ao mesmo tempo ama, dá vida a uma história de amor (...), amor [que] se manifesta cheio de inesgotável fidelidade e misericórdia; é um amor que perdoa para além de todo o limite» [5].

2. Como é Deus?

O Deus da Sagrada Escritura não é uma projeção do homem, pois a Sua absoluta transcendência só pode ser descoberta a partir de fora do mundo e, por isso, como fruto de uma revelação; quer dizer, não há propriamente uma revelação intramundana. Ou, dito de outro modo, a natureza como lugar da revelação de Deus [6] remete sempre para um Deus transcendente. Sem esta perspectiva, não teria sido possível para o homem chegar a estas verdades. Deus é ao mesmo tempo exigente [7] e amante, muito mais do que o homem se atreveria a esperar. De fato, podemos imaginar facilmente um Deus omnipotente, mas custa-nos reconhecer que essa omnipotência nos possa amar [8]. Entre a concepção humana e a imagem de Deus revelada há, simultaneamente, continuidade e descontinuidade, porque Deus é o Bem, a Beleza, o Ser, como dizia a filosofia, mas, ao mesmo tempo, esse Deus ama-me a mim, que sou nada em comparação com Ele. O eterno procura o temporal e isso altera radicalmente as nossas expectativas e a nossa perspectiva de Deus.

Em primeiro lugar Deus é Uno, mas não no sentido matemático como um ponto, mas é Uno em sentido absoluto desse Bem, dessa Beleza e desse Ser de quem tudo procede. Pode dizer-se que é Uno porque não há outro deus e porque não tem partes; mas, ao mesmo tempo, há que dizer que é Uno porque é fonte de toda a unidade. De fato, sem Ele tudo se decompõe e regressa ao não ser: a Sua unidade é a unidade de um Amor que também é Vida e dá a vida. Por isso, esta unidade é infinitamente mais do que uma simples negação da multiplicidade.

A unidade leva a reconhecer Deus como o único verdadeiro. Mais ainda, Ele é a Verdade e a medida e fonte de tudo o que é verdadeiro (cf. Compêndio, 41); e isto porque justamente Ele é o Ser. Por vezes, tem-se medo desta identificação, porque parece que, dizendo que a verdade é una, se torna impossível todo o diálogo. Por isso, é tão necessário considerar que Deus não é verdadeiro no sentido humano do termo, que é sempre parcial. Mas que n'Ele a Verdade se identifica com o Ser, com o Bem e com a Beleza. Não se trata de uma verdade meramente lógica e formal, mas de uma verdade que se identifica com o Amor que é Comunicação, em sentido pleno: efusão criativa, exclusivo e universal ao mesmo tempo, vida íntima divina partilhada e participada pelo homem. Não estamos a falar da verdade das fórmulas ou das ideias, que são sempre insuficientes, mas da verdade do real que, no caso de Deus, coincide com o Amor. Além disso, dizer que Deus é a Verdade quer dizer que a Verdade é o Amor. Isto não mete nenhum medo e não limita a liberdade. De modo que, a imutabilidade de Deus e a Sua unicidade coincidem com a sua Verdade, enquanto que é a verdade de um Amor que não pode passar.

Assim se vê que, para entender o sentido propriamente cristão dos atributos divinos, é necessário unir a afirmação de omnipotência com a de bondade e misericórdia. Só quando se entendeu que Deus é omnipotente e eterno, a pessoa se pode abrir à esmagadora verdade de que este mesmo Deus é Amor, vontade de Bem, fonte de toda a Beleza e de todo o dom [9]. Por isso os dados oferecidos pela reflexão filosófica são essenciais embora, de algum modo, insuficientes. Seguindo este percurso a partir das características que se percebem como primeiras até às que se podem compreender apenas mediante o encontro pessoal com Deus que se revela, chega-se a entrever como estes atributos são expressos com termos distintos apenas na nossa linguagem, enquanto que na realidade de Deus coincidem e se identificam. O Uno é o Verdadeiro e o Verdadeiro identifica-se com o Bem e com o Amor. Com outra imagem, pode dizer- se que a nossa razão limitada atua um pouco como um prisma que decompõe a luz nas diferentes cores, cada uma das quais é um atributo de Deus; mas que em Deus coincidem com o Seu próprio Ser, que é Vida e fonte de toda vida.

3. Como conhecemos a Deus?

Pelo que foi dito, podemos conhecer como é Deus a partir das Suas obras: só o encontro com o Deus que cria e que salva o homem pode revelar-nos que o Único é simultaneamente o Amor e a origem de todo o Bem. Assim Deus é reconhecido não só como intelecto - Logos segundo os gregos - que outorga racionalidade ao mundo - ao ponto de que alguns o terem confundido com o mundo, como acontecia na filosofia grega e como volta a suceder com algumas filosofias modernas - mas que também é reconhecido como vontade pessoal que cria e que ama. Trata-se, assim, de um Deus vivo; mais ainda, de um Deus que é a própria Vida. Assim, enquanto Ser vivo dotado de vontade, vida e liberdade, na Sua infinita perfeição, Deus permanece sempre incompreensível; ou seja, irreduzível a conceitos humanos.

A partir do que existe, do movimento, das perfeições, etc. pode-se chegar a demonstrar a existência de um Ser supremo fonte desse movimento, das perfeições, etc. Mas, para conhecer o Deus pessoal que é Amor, é preciso procurá-Lo na Sua atuação na história a favor dos homens e, por isso, faz falta a Revelação. Olhando para o Seu atuar salvífico descobre-se o Seu Ser, do mesmo modo que, pouco a pouco, se conhece uma pessoa através do convívio com ela.

Neste sentido, conhecer Deus consiste sempre e só em reconhecê-Lo, porque Ele é infinitamente superior a nós. Todo o conhecimento sobre Ele procede d'Ele e é um dom Seu, fruto do Seu abrir-Se, da Sua iniciativa. Então, a atitude para nos aproximarmos deste conhecimento deve ser de profunda humildade. Nenhuma inteligência finita pode abarcar Aquele que é Infinito, nenhuma potência pode sujeitar o Omnipotente. Só podemos conhecê-Lo através do que Ele nos dá, quer dizer, através da participação que temos nos Seus bens, fundamentada nos Seus atos de amor com cada um.

Por isso, o nosso conhecimento d'Ele é sempre analógico: quando afirmamos algo d'Ele, simultaneamente temos que negar que essa perfeição se dê n'Ele de acordo com as limitações que vemos no criado. A tradição fala de uma tripla via: de afirmação, de negação e de eminência, em que o último movimento da razão consiste em afirmar a perfeição de Deus muito para além do que o homem pode pensar e que é origem de todas as realizações dessa perfeição que se vêm no mundo. Por exemplo, é fácil reconhecer que Deus é grande, mas mais difícil é aperceber-se de que Ele é também pequeno, porque na criação o grande e o pequeno contrapõem-se. No entanto, se pensarmos que ser pequeno pode ser uma perfeição, como se vê no fenômeno da nanotecnologia, então Deus tem que ser também fonte dessa perfeição e, n'Ele, essa perfeição deve identificar-se com a grandeza. Por isso, temos que negar que é pequeno (ou grande) no sentido limitado que se lhes dá no mundo criado, para purificar essa atribuição passando à eminência. Um aspecto especialmente relevante é a virtude da humildade, que os gregos não consideravam virtude. Por ser uma perfeição, a virtude da humildade não só é possuída por Deus, mas Deus identifica-Se com ela. Chegamos assim à surpreendente conclusão de que Deus é a Humildade; de tal modo que, só se pode conhecê-Lo numa atitude de humildade, que não é outra coisa senão a participação no dom de Si mesmo.

Tudo isso implica que se pode conhecer o Deus cristão mediante os sacramentos e através da oração na Igreja, que torna presente a Sua ação salvífica para os homens de todos os tempos.

Giulio Maspero

Bibliografia básica
Catecismo da Igreja Católica, 199-231; 268-274.
Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, 36-43; 50.

Leituras recomendadas
São Josemaria, Homilia «Humildade», em Amigos de Deus, 104-109.
J. Ratzinger, El Dios de los cristianos. Meditaciones, Ed. Sígueme, Salamanca 2005.

Notas
[1] O ateísmo é um fenômeno moderno que tem raízes religiosas, enquanto nega a verdade absoluta de Deus apoiando-se numa verdade que é igualmente absoluta, ou seja, a negação da Sua existência. Precisamente por isso, o ateísmo é um fenômeno secundário em relação à religião e pode também entender-se como uma “fé” de sentido negativo. O mesmo se pode dizer do relativismo contemporâneo. Sem a revelação, estes fenômenos de negação absoluta seriam inconcebíveis.
[2] Os deuses estavam sujeitos ao Destino (Fado), que tudo dirigia como uma necessidade, muitas vezes, sem sentido: daí o sentimento trágico da existência que caracteriza o pensamento e a literatura gregos.
[3] «Deus revela-Se a Moisés como o Deus vivo: “o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacob” (Ex 3, 6). Ao mesmo Moisés, Deus revela também o seu nome misterioso: “Eu Sou aquele que Sou (YHWH)”. O nome inefável de Deus, já nos tempos do Antigo Testamento, foi substituído pela palavra Senhor. Assim, no Novo Testamento, Jesus, chamado o Senhor, aparece como verdadeiro Deus» (Compêndio, 38). O nome de Deus admite três possíveis interpretações: 1) Deus revela que não é possível conhecê-Lo, afastando do homem a tentação de se aproveitar da sua amizade com Ele como se fazia com as divindades pagãs mediante as práticas mágicas, e afirmando a Sua própria transcendência;
2) de acordo com a expressão hebraica utilizada, Deus afirma que estará sempre com Moisés, porque é fiel e está ao lado de quem confia n'Ele; 3) de acordo com a tradução grega da Bíblia, Deus manifesta- Se como o próprio Ser (Cf. Compêndio, 39), em harmonia com as intuições da filosofia.
[4] Santo Agostinho, Confissões, 3, 6, 11.
[5] Bento XVI, Discurso na IV Assembleia Eclesial Nacional Italiana, 19-X-2006.
[6] João Paulo II, Enc. Fides et Ratio, 14-IX-1998 , 19.
[7] Deus pede ao homem - a Abraão - que saia da terra prometida, que deixe as suas seguranças, confia nos pequenos, pede coisas de acordo com uma lógica diferente da humana, como no caso de Oseias. É claro que não pode ser uma projeção das aspirações ou dos desejos humanos.
 [8] «Como é possível darmo-nos conta disso, apercebermo-nos de que Deus nos ama e não enlouquecermos também nós de amor? É necessário deixar que essas verdades da nossa fé vão calando na alma, até mudarem toda a nossa vida. Deus ama-nos! O Omnipotente, o Todo Poderoso, o que fez os céus e a terra» (São Josemaria, Cristo que Passa, 144).
[9] «Deus revela-Se a Israel como Aquele que tem um amor mais forte do que o pai ou a mãe pelos seus filhos ou o esposo pela sua esposa. Ele, em Si mesmo, “é amor” (1 Jo 4, 8.16), que se dá completa e gratuitamente, “que tanto amou o mundo que lhe deu o seu próprio Filho unigênito, para que o mundo seja salvo por seu intermédio” (Jo 3, 16-17). Enviando o seu Filho e o Espírito Santo, Deus revela que Ele próprio é eterna permuta de amor» (Compêndio, 42).