quarta-feira, 4 de maio de 2016

Sempre um tripé


Um pedreiro, um bom pedreiro, quando é contratado para realizar uma obra, a primeira coisa que ele faz é examinar a planta e entendê-la. Para isso, ele passa algum tempo, não raras vezes, muito tempo, “conversando” com o projeto do engenheiro, para compreender todos os pormenores da obra. Como fazer o alicerce, quais os materiais a serem usados; qual o diâmetro da ferragem, a quantidade de areia, pedra e cimento a ser usado no concreto. Depois, as paredes, quais serão duplas, quais serão simples, quais serão de meio tijolo, qual a formulação da massa a ser usada, onde ficarão as aberturas ou vãos de portas e janelas. Se tiver laje como forro, qual a ferragem a ser usada e a formulação do concreto de cobertura. Vem então a fase do reboco: qual será a formulação da massa, quais paredes serão preparadas para receber revestimentos, quais receberão acabamento de massa fina. Finalmente, o piso: se será rustico para receber revestimento cerâmico ou mais liso para carpete ou piso laminado. Enfim, um longo diálogo para conhecer tudo sobre o projeto a ser realizado. Nesse projeto tinha algo que ele ainda não conhecia: Paredes duplas externas, para receber entre elas lã de vidro para isolação térmica e acústica.


O bom pedreiro já é um profissional que aprendeu a fazer bem o seu trabalho. Mas o avanço tecnológico que também ocorre na área da construção civil, pode lhe preparar algumas surpresas no projeto. Algum material ou alguma técnica que lhe é desconhecida. Ele terá então que aprender sobre os materiais e técnicas que lhe são estranhos, para depois colocar em pratica este aprendizado. Feito isso, ele estará pronto para começar a obra que foi contratada. Foi o que fez o pedreiro da história. Foi buscar conhecimento sobre as paredes duplas.
Ele sabe que sozinho não conseguirá desenvolver a contento seu trabalho. Então contrata outros pedreiros e alguns ajudantes e começa a trabalhar. Depois de alguns meses, eis que surge uma majestosa construção em um local que antes fora apenas um terreno baldio. E, ao contemplar sua obra, o pedreiro se sente feliz e realizado. Um belo trabalho.
Se observarmos os passos dessa pequena história, que trata de um assunto corriqueiro, veremos que tudo se assenta em um tripé.
A primeira perna do tripé foi a “conversa” com a planta que o engenheiro lhe entregou. Foi nessa conversa que ele entendeu como deveria ordenar seus passos, para que tudo corresse bem.
A segunda perna do tripé foi todo o conjunto de variantes que estava contido no projeto. O trabalho em si ela já conhecia, pois já havia executado várias outras construções e já havia aprendido muitas coisas da sua profissão. Mesmo assim, surgiram algumas coisas novas nesse projeto, a tal parede dupla que ele não conhecia. Então ele precisou estudar o assunto para que seu trabalho fosse perfeito.
A terceira perna do tripé aparece com o início da construção, ou seja, com a ação executado pelo pedreiro, com a colaboração de seus colegas de trabalho.
Depois de concluída a obra. Ele a contempla e se sente feliz pela realização.
Entretanto, se ele não seguisse o tripé, a obra provavelmente não seria digna da felicidade que ele sentiu.
Se analisarmos todas as atividades humanas, eles seguem esse esquema. Tudo está assentado sobre um tripé.
E isso também acontece na religião, especialmente no cristianismo católico. Querem ver? ... Vamos lá.
Falamos em uma obra na história do pedreiro. Portanto, vamos começar com essa ideia e verifiquemos o que nos diz a Carta de Tiago, no seu capitulo II.
14. De que aproveitará, irmãos, a alguém dizer que tem fé, se não tiver obras? Acaso esta fé poderá salvá-lo? 15. Se a um irmão ou a uma irmã faltarem roupas e o alimento cotidiano, 16. e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, mas não lhes der o necessário para o corpo, de que lhes aproveitará? 17. Assim também a fé: se não tiver obras, é morta em si mesma.
O que Tiago quer dizer para nós?
O que ele quer dizer é muito simples: ter fé implica acreditar em alguém que nos ensinou como caminhar na vida e seguir o exemplo dessa pessoa. E a referência de Tiago todos os cristãos conhecem: é Jesus o Cristo. Podemos dizer então que o obra de todo cristão é seguir Jesus. E aí alguém perguntará: mas essa obra tem um projeto? O pedreiro tinha uma planta com o qual ele conversou longamente e disso percebeu que precisava estudar para entender melhor aquele projeto, para só então desenvolvê-lo a contento.
No caso de Tiago, podemos comparar Jesus com o nosso pedreiro. Sim, Jesus tinha um projeto e ele o estudou muito antes de coloca-lo em prática. Querem ver?
Ao abrirmos a Bíblia nos deparamos com Deus já criando, ou seja, já existia um projeto que estava sendo cumprindo, o projeto da criação, que culmina com a criação do homem e da mulher. É nesse instante que surge outro projeto, cujo engenheiro é o próprio Deus. Ele está ali no versículo 29 do capitulo I do Genesis:
27. Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher. 28. Deus os abençoou: “Frutificai, disse ele, e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra”. 29. Deus disse: “Eis que eu vos dou toda a erva que dá semente sobre a terra, e todas as árvores frutíferas que contêm em si mesmas a sua semente, para que vos sirvam de alimento. 30. E a todos os animais da terra, a todas as aves dos céus, a tudo o que se arrasta sobre a terra, e em que haja sopro de vida, eu dou toda erva verde por alimento. E assim se fez”.
Deus lhes deu o paraíso. Esse é o projeto de Deus: que o homem e a mulher, ou seja, que a humanidade viva no paraíso.
Mas aquele primeiro casal não soube construir e aperfeiçoar o paraíso. Pelo contrário: a prepotência os levou a deturpar o projeto, a descaracterizá-lo. Não acolheram a proposta do Engenheiro. Seus seguidores primeiros seguiram a mesma sina.
Percebem nisso a ausência das pernas do tripé?
Muitos tentaram retomar o projeto, que era então o projeto da humanidade. Entre eles, alguns até sabiam do tripé, mas não conseguirem bons auxiliares e sozinhos nada conseguiram de muito frutuoso.
Depois de muitos anos de caminhada eis que surge um Pedreiro diferente, um verdadeiro construtor. A primeira coisa que ele faz é estudar muito o projeto de Deus. Ele dedicou vários anos de sua vida nesse diálogo com o projeto e com o Engenheiro. Estudou o projeto e estudou muito a forma de realiza-lo. Dedicou-se com afinco nestas duas tarefas. Quando se achou em condições de executá-lo, começou a reunir seus auxiliares. Desses escolheu doze homens, que ele formou como construtores, e muitos ajudantes.
Então ele começou a sua construção que, por algum tempo, não encontrou muitos obstáculos e os que apareciam, Ele conseguia transpor, sempre conversando com o Engenheiro e estudando o projeto. Mas, a inveja corroeu aqueles que se achavam seus concorrentes, aqueles que achavam que estavam cumprindo o projeto, mas que, na verdade, continuavam a deturpá-lo. E aí surge o embate, o conflito. Na hora do enfrentamento seus auxiliares não o ajudaram, não porque não quisessem, mas porque foram ensinados para serem pacíficos. Não sabiam ser violentos como seus adversários, os quais, de forma covarde e injusta, executam o Mestre.
E pareceu então que o projeto morreria com seu Construtor, mas eis que Ele ressurge, reúne seus colaboradores e transfere a eles a responsabilidade de continuarem seu projeto. Este projeto ainda está em construção a quase dois mil anos. Muitos tentaram interrompê-lo, mas ninguém conseguiu. Podemos dizer, sem medo de errar, que é muito mais provável que este projeto chegue a seu termo do que alguém possa interrompê-lo. Isso porque, de uma forma ou de outra, o Construtor continua na sua condução.
Agora, vejam: esse Construtor passou muitos anos dialogando com o Projeto e com o Engenheiro (na linguagem cristã, nos dizemos que ele rezava e conversava com o Engenheiro (DEUS)). Além disso, ele passou também muitos anos estudando como desenvolver aquele projeto, como fazer algumas coisas do projeto que Ele não sabia. Somente depois de estar preparado ele partiu em busca de colaboradores e iniciou sua construção, que continua em pleno andamento.
O que aparece aqui: primeiro a conversa com o Engenheiro, com o Autor do projeto: Ele rezava fervorosamente; depois, o estudo pois Ele precisava conhecer bem todos os componentes do projeto, muitos dos quais eram novos para a realidade daqueles tempos; finalmente, a busca pelos colaboradores e o início da ação, da construção.
Temos aqui novamente o tripé: e dessa vez é muito fácil identificar suas pernas: a primeira: a oração; a segunda: formação; a terceira: a ação.
Não é preciso muito esforço para descobrirmos que o Construtor aqui é Jesus. Mas talvez precisemos que um pouco de esforço para compreender que mesmo Jesus precisou se apoiar no tripé: Ele rezou, estudou e depois agiu.
E assim foi com muitos daqueles que o sucederam nessa caminhada de construção do seu projeto, que Ele chamou de Reino de Deus ou Reino dos Céus e que sabemos tratar-se do Paraíso no projeto original.
Portanto, nós cristãos, que nos consideramos seguidores de Jesus, só poderemos de fato dizer isso, se seguirmos os caminhos do Mestre: para realizarmos qualquer fase do projeto, por menor que seja, temos que nos apoiar nesse tripé: oração, formação e ação. Se não o fizermos, estaremos muito provavelmente fadados ao insucesso.
Padre Zezinho tem uma música, infantil até, mas que faz presente essa advertência para nós hoje.
Amar como Jesus amou
Sonhar como Jesus sonhou
Pensar como Jesus pensou
Viver como Jesus viveu
Sentir o que Jesus sentia
Sorrir como Jesus sorria
E ao chegar ao fim do dia
Eu sei que dormiria muito mais feliz
Jesus orou, estudou e agiu. Passou mais tempo orando e estudando do que propriamente agindo. Só agiu quando se sentiu preparado.
Tenhamos sempre em mente essa verdade cristã: para agir precisamos estar preparados (formados), para nós formarmos, precisamos orar e orar bem, dialogar com Deus; só depois disso é que deveremos partir para a ação.
Então, de nada adianta simplesmente decorar orações prontas. Elas nos são útil, mas não podemos ficar só nisso. É preciso ir mais além, é preciso entrar no clima da oração, é preciso ampliar nosso horizonte espiritual, é preciso dialogar com a Trindade Santa.
Depois passamos ao estudo. Ler a Bíblia é muito importante. Mas é preciso estudá-la, ruminar a Palavra, entender seu sentido e seu significado e, principalmente, sua atualidade. Para isso precisamos de formação, de aprender com aqueles que estão mais familiarizados com as coisas sagradas, senão ficamos como crianças, sempre a depender de papinha porque não aprendemos a ingerir alimento sólido. Seremos sempre crianças na fé e jamais cristãos maduros e caminhantes da estrada de Jesus.
Por fim, quando nos sentirmos seguros de nossos conhecimentos, começamos a agir de forma consciente e destemida, sem medo de dar as razões de nossa fé e seguros do caminho que devemos seguir. Só assim seremos sal da terra e luz do mundo.


Antonio Gazato Neto

leigo cristão católico